Capítulo 216 — Movimento no Tabuleiro
Alexander Sterling
Acompanhei com o olhar o jato ganhar altitude sobre a baía de São Francisco até se transformar em um ponto prateado cortando o azul límpido do céu.
O garoto teve sorte. Muita sorte. Na minha linha de trabalho, vi dezenas de homens jovens e fortes sucumbirem às mesmas substâncias sem que ninguém estendesse uma única mão para puxá-los da lama. A maioria terminava estirado no chão frio de um necrotério antes dos vinte e cinco anos.
Samuel Olsen tinha feito escolhas imundas, mas a lealdade da irmã e a generosidade pragmática do Henry compraram para ele uma segunda chance rara e cara. Eu torcia, com sinceridade, para que ele agarrasse aquela oportunidade no Colorado com unhas e dentes. O rapaz tinha nas mãos a salvação de uma vida inteira.
Puxei o ar fresco que soprava pela abertura do hangar, sentindo o clima ao meu redor relaxar. A despedida havia sido pesada, carregada daquela fragilidade bonita que só quem quase perdeu tudo entende. Henry mantinha a Sara acolhida sob o braço com uma devoção evidente; Evie trocava olhares cúmplices com a Victoria; e Adrian vigiava os passos da esposa com a atenção de sempre, a mão pousada no início da curva da cintura dela.
Foi quando o toque agudo e curto do meu celular quebrou a calmaria.
Tirei o telefone do bolso da jaqueta. O visor com tela verde piscou o nome do Thomas.
Atendi no mesmo segundo, levando o aparelho ao ouvido:
— Sterling.
— Alex, pegamos movimentação pesada no radar agora há pouco — a voz do Tom veio rápida, limpa e tensa. — O Chen interceptou uma tentativa de liquidação emergencial de custódia na Vanguard Logistics. O Edgar Walton tentou passar um lote de quarenta milhões de dólares para uma conta offshore nas Ilhas Cayman há exatos dez minutos. O sistema de trava que o Andrew implantou nos servidores da holding barrou o envio, mas o alerta de fraude apitou no painel deles.
Cerrei os dentes, sentindo os músculos das minhas costas enrijecerem no mesmo instante:
— Ele usou uma procuração fiduciária com a assinatura digital da Diana Bowers. Alex, eles sabem que o cerco está se fechando. O mandado federal da promotoria ainda leva entre vinte e quatro e quarenta e oito horas para descer do juiz, e o Walton está tentando queimar a casa para fugir com o cofre.
— Certo. — murmurei.
Desci o aparelho devagar, encerrando a conexão com um toque na tela.
O silêncio caiu pesado sobre o grupo reunido. Todos os olhos se voltaram para mim. A atmosfera suave de minutos atrás evaporou como água em chapa quente. Adrian deu meio passo à frente, com as feições duras e o queixo erguido.
— Alex?
Guardei o telefone no bolso, respirei fundo e encarei os olhares tensos à minha frente.
— Temos um problema.
Victoria franziu o cenho, trocando um olhar assustado com a Sara, que apertou o braço do Henry de forma involuntária. Lucas deu um passo para perto de mim, cruzando os braços com a sobrancelha arqueada.
— Que tipo de problema, Sterling?
— Edgar Walton tentou fazer uma manobra financeira emergencial agora há pouco — expliquei com a voz calma, mas firme, mantendo o tom profissional que sempre usava em relatórios de campo. — Ele acionou uma procuração assinada pela Diana e tentou esvaziar quarenta milhões de dólares das contas operacionais da Vanguard direto para um paraíso fiscal.
Adrian estreitou os olhos azuis, a mandíbula travando com violência.
— O dinheiro da fraude? Ele tentou blindar o capital antes da chegada da polícia?
— Exatamente — assenti, olhando nos olhos do Foley. — Ele percebeu alguma anomalia nos sistemas internos ou recebeu algum sopro de que a investigação federal avançou demais. As travas que a minha equipe colocou na rede seguraram o montante, a transação foi abortada a tempo, mas o alarme tocou na ponta dele. O Edgar sabe, a partir deste exato instante, que as contas estão grampeadas e que a corda no pescoço dele esticou até o limite.
Henry soltou um suspiro irritado, passando a mão livre pelos cabelos loiros.
— Aquele rato de terno sabe que está encurralado. Mas e aí? Se o dinheiro não saiu, a promotoria não pode antecipar esse maldito mandado de prisão preventiva e chutar a porta daquele escritório hoje mesmo?
— O sistema burocrático federal não se move no ritmo que a gente quer, Henry — respondi com realismo. — O juiz responsável pela comarca só despacha a ordem com os laudos completos das assinaturas cruzadas da Flórida, e o promotor me garantiu que isso leva pelo menos mais vinte e quatro horas de trâmite legal. Até lá, o Walton é um homem livre perante a lei comum.
Adrian deu mais um passo na minha direção, o semblante carregado por aquela autoridade implacável que ele sempre demonstrava quando os seus negócios eram ameaçados.
— E no que isso pode nos afetar diretamente, Alex? Qual é a próxima jogada dele se ele não conseguir fugir com esse dinheiro?
Sustentei o olhar do Adrian, sem dourar a pílula.
— Homens como Edgar Walton e os financiadores da família Bowers não recuam quando perdem a rota de fuga, Adrian. Pessoas gananciosas e encurraladas não pedem arrego; elas atacam. O desespero faz esse tipo de criminoso agir por impulso para tentar eliminar ameaças ou forçar um acordo antes da chegada dos agentes federais. Ele vai tentar alguma coisa. Pode ser sabotagem de ativos, pode ser chantagem direta, ou pode ser algo muito mais agressivo.

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