Capítulo 215 — Céu Aberto, Nuvens Escuras
Sara Olsen
A segunda-feira amanheceu com um céu azul límpido sobre a baía de São Francisco.
Depois de um domingo inteiro em casa, aninhada nos braços do Henry e tentando desacelerar o turbilhão de pensamentos que tomava conta da minha cabeça, o relógio finalmente marcou sete horas da manhã.
A ansiedade não me deixou pregar os olhos direito durante a madrugada. Cada batida no peito parecia uma contagem regressiva para o instante em que eu teria que soltar a mão do meu irmão e confiar que ele saberia caminhar sozinho em direção à própria cura.
Henry dirigiu até o hospital com a calma protetora de sempre. Ao chegarmos ao quarto, encontramos o Samuel já vestido com roupas limpas que eu mesma havia comprado no fim de semana: uma calça jeans escura, tênis confortável e um casaco grosso de lã para protegê-lo do frio impiedoso que o esperava nas montanhas do Colorado. A bolsa de viagem repousava sobre a poltrona ao lado do leito.
Ele parecia menos pálido, com uma cor tímida voltando às bochechas e os olhos atentos, sem o desespero cru dos dias anteriores. Quando cruzou a porta de saída da enfermaria, apoiado no meu braço com passos lentos mas firmes, senti um nó apertar a minha garganta.
Era a primeira vez em anos que eu via o meu irmão sair de um hospital sem ser algemado, sem correr da polícia e sem o olhar vidrado de quem só pensava na próxima dose.
Aline já havia assinado a liberação médica oficial. Andrew, com a postura impecável e atenta sob as ordens do Sterling, assumiu o volante de um dos utilitários pretos para nos escoltar até o hangar privativo no aeroporto de Oakland.
Durante o trajeto sobre a ponte, Samuel não disse quase nada. Ele apenas manteve os olhos fixos na paisagem que passava pela janela do vidro escurecido, com a mão magra entrelaçada à minha no banco traseiro, apertando os meus dedos de vez em quando como se quisesse ter certeza de que aquele momento era real.
Às oito e meia em ponto, o carro cruzou a guarita de segurança da área de aviação executiva.
O hangar era imenso, impecavelmente limpo, com o piso de epóxi reluzindo sob a luz matinal. Bem no centro da pista de taxiamento, o jato executivo fretado pelo Henry já estava com os motores auxiliares ligados, emitindo um zumbido grave e ritmado, com a escada de acesso abaixada e a tripulação a postos junto à fuselagem branca.
Mas o que realmente fez as minhas pernas fraquejarem de emoção não foi o avião.
Assim que Andrew estacionou e Henry desceu para abrir a minha porta, reparei em duas caminhonetes pretas estacionadas à sombra da estrutura metálica. Encostados nos veículos, esperando pacientemente pela nossa chegada, estavam os nossos amigos.
Adrian estava de pé ao lado da Vic, mantendo o braço protetor ao redor da cintura da esposa. Evie conversava em voz baixa com eles. E encostado na lateral do carro, com as mãos nos bolsos e a postura séria, estava Lucas.
Ver Victoria e Lucas ali fez os meus olhos arderem em lágrimas na mesma hora.
Eles não precisavam ter ido. A Nat ainda estava de repouso absoluto no hospital após o acidente, a Vic precisava evitar qualquer tipo de desgaste físico por conta da gravidez de risco, e mesmo assim os dois fizeram questão de estar presentes.
Victoria e Lucas eram os meus melhores amigos na face desta terra; tinham visto de perto cada lágrima que derramei, haviam me acolhido quando eu não tinha onde cair morta e sabiam exatamente o inferno que tinha sido a minha luta diária para não deixar o Samuel morrer de overdose.
Ajudei o Samuel a descer do veículo. Ele parou no asfalto, fitando o grupo reunido com a cabeça baixa e um constrangimento palpável.
Victoria foi a primeira a quebrar o gelo. Ela se aproximou com passos cuidadosos, segurando o vestido fluido para o vento não bater com força, e parou na frente do meu irmão. Os olhos castanhos dela, sempre tão intensos e expressivos, estavam cheios de uma compaixão sincera.
— Samuel… — ela começou, a voz saindo mansa. — Eu não poderia deixar você embarcar sem vir aqui te dar um abraço. A sua irmã é o bem mais precioso que nós temos. Nós duas dividimos a vida, os medos e os sonhos. Eu vi a Sara passar noites em claro orando pela sua vida.
Victoria deu um passo mais perto e tocou o braço magro dele.
— Mostra para todo mundo do que você é capaz, garoto. Se dedica de corpo e alma lá dentro. A sua irmã merece ver você curado, e o seu sobrinho merece ter o melhor tio deste mundo. Estamos torcendo por você.
Samuel engoliu em seco, os olhos marejando na hora. Ele assentiu com a cabeça, a voz falhando em gratidão.
— Obrigado, Vic… De verdade. Obrigado por ter cuidado da minha irmã quando eu só causei destruição na vida dela.
Foi a vez do Lucas se aproximar. A expressão dele carregava aquela maturidade firme de quem já havia enfrentado os próprios demônios e sabia o peso da decisão do meu irmão.
— Fala, Samuel — Lucas estendeu a mão aberta, firme. Samuel segurou a mão dele, e Lucas o puxou para um abraço rápido de ombro, dando dois t***s nas costas dele. — O caminho lá em cima não vai ser fácil, cara. Vai ter dias em que você vai querer chutar o balde e desistir de tudo. Mas quando bater essa fraqueza, pensa nessa mulher aqui — Lucas apontou com a cabeça na minha direção, me fitando com um carinho de irmão mais velho. — Pensa na chance única que a vida e o Henry estão te dando. Foco no tratamento. A gente se vê quando você voltar limpo.
— Eu vou voltar limpo, Lucas. Dou a minha palavra — Samuel afirmou com solenidade.
Adrian e Evie também se aproximaram, deixando palavras gentis de incentivo que fizeram o meu irmão se sentir, talvez pela primeira vez em toda a sua juventude, um ser humano digno de respeito.

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