Capítulo 214 — Por Você Eu Faço Tudo
Sara Olsen
Samuel permaneceu imóvel por alguns segundos intermináveis.
Ele olhou para as próprias mãos trêmulas entre as minhas, depois para a janela por onde a luz fria entrava, e finalmente voltou a cravar os olhos nos meus. A dúvida que eu tanto temia que tomasse conta dele simplesmente não apareceu.
No lugar do medo ou da revolta do garoto agressivo de meses atrás, havia apenas uma rendição sincera e uma determinação que eu nunca tinha visto no rosto do meu irmão.
— Eu aceito, Sara — ele respondeu, a voz saindo firme apesar do choro que voltava a molhar o seu rosto. — Eu aceito. Eu vou pra onde for preciso.
Soltei o ar que nem percebi estar prendendo nos pulmões, deixando o alívio lavar a minha alma inteira.
Samuel puxou as minhas mãos contra o próprio peito, apertando-as com força.
— Eu prometo pra você, Sa… Eu juro pela memória da nossa mãe que eu vou me dedicar até o meu último suspiro naquele lugar. Eu vou limpar essa sujeira de dentro de mim. Eu vou me curar por você, por mim e por essa criança que tá chegando. Eu quero ser alguém de quem esse bebê possa ter orgulho no futuro. Eu nunca mais vou te envergonhar. Eu juro.
— Eu acredito em você, Sam — puxei o corpo dele para outro abraço apertado, chorando de pura gratidão contra o ombro do meu irmão. — Eu acredito com toda a minha alma.
Duas batidas suaves e ritmadas na porta de madeira interromperam o nosso momento de reconciliação.
Me afastei devagar, limpando as lágrimas com o dorso da mão enquanto me colocava em pé ao lado da cama. A maçaneta prateada girou e a porta se abriu, revelando três figuras imponentes no vão de entrada.
Henry vinha na frente, com a postura ereta e os olhos azuis atentos, procurando os meus com um cuidado silencioso para avaliar o meu estado. Logo atrás dele estava Alexander Sterling, com seu porte militar intimidador, jaqueta escura e uma frieza compenetrada. E ao lado dos dois, vestindo um jaleco branco impecável com o estetoscópio pendurado no pescoço, vinha Aline.
Samuel encolheu os ombros de forma involuntária na cama, intimidado pela presença daqueles homens e pela lembrança do passado turbulento.
Aline foi a primeira a quebrar a rigidez do ambiente. Ela se aproximou do leito com um sorriso acolhedor, tirando o prontuário da pasta metálica.
— Bom dia, Samuel. Como você está se sentindo hoje?
— Cansado… mas melhor — ele respondeu baixo, ajeitando a postura no colchão.
Aline consultou os laudos com atenção profissional antes de erguer os olhos doces para nós.
— Os últimos exames de sangue e as enzimas hepáticas mostraram uma evolução muito satisfatória nas últimas quarenta e oito horas. O quadro infeccioso foi totalmente debelado pelos antibióticos da UTI e a função renal se estabilizou. Clinicamente, o seu organismo está limpo e apto a respirar sem qualquer suporte hospitalar. Nós vamos manter a hidratação e a medicação de manutenção até segunda-feira de manhã. Na segunda cedo, você recebe a alta oficial deste hospital.
Samuel soltou um suspiro aliviado, assentindo com a cabeça.
— Obrigado, doutora.
Aline guardou a prancheta e deu um passo para trás, cedendo espaço. Foi então que Alexander deu dois passos pesados à frente, cruzando os braços largos sobre o peito e fitando meu irmão com autoridade.
— A parte médica aqui se encerra na segunda-feira, Samuel. A partir daí, começa o seu verdadeiro trabalho.
Samuel sustentou o olhar penetrante do Alex, engolindo em seco.
— O senhor quem é?
— Sou o Alexander Sterling, amigo pessoal do Henry e da Sara. Sua irmã comentou com você sobre a clínica?
— Sim senhor. — meu irmão afirmou.
— E qual foi a sua decisão sobre isso? — Alex perguntou mantendo seu tom firme.
— Aceitei fazer o que for preciso para mudar de verdade. — Samuel respondeu sem hesitar e sorri sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
— Fico feliz por sua decisão, Samuel. O problema nunca foi errar, e sim o que iremos fazer após o erro. E você está fazendo a coisa certa. — Alex disse em um tom mais brando dessa vez.
— Muito obrigado, senhor Sterling.
— Pode me chamar de Alex. — Alexander rebateu antes de continuar. — Eu já deixei toda a logística pronta para a sua transferência na segunda-feira pela manhã. Eu conversei pessoalmente com o diretor-clínico da unidade em Aspen, no Colorado. A equipe que vai cuidar de você é de elite. Terapeutas renomados, psiquiatras e um protocolo de reintegração física avançado. É uma propriedade isolada, segura e que oferece todas as ferramentas possíveis para você zerar o seu organismo. Você vai ser muito bem assistido desde o minuto em que colocar os pés naquela clínica.

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