Na luz fraca, o médico estava de costas, jogando o lixo fora.
O olhar de Maria Gomes se desviou, pousando na bandeja médica ao lado.
Ela olhou furtivamente para o médico e, com mãos rápidas, estendeu o braço para fora das cobertas, agarrou a tesoura cirúrgica e a escondeu sob o edredom.
Antes, ao trocar as roupas dela, Nicolau Cruz havia removido as algemas.
Devido à luta, os pulsos finos e brancos dela estavam esfolados.
Nicolau Cruz sentiu pena ao ver aquilo, somado à aparência pálida e abatida dela.
Ele decidiu não colocar as algemas novamente, permitindo que o médico fizesse curativos e enfaixasse os pulsos.
Caso contrário, ela não teria conseguido pegar o objeto.
Ela segurou a tesoura com força em sua mão.
Alguns minutos depois, passos foram ouvidos, tornando-se claros até pararem ao lado da cama.
Maria Gomes sabia que Nicolau Cruz havia retornado.
Nicolau Cruz parou ao lado da cama, baixando os olhos para observar Maria Gomes.
Maria Gomes, dormindo quietamente, parecia obediente; sua aparência pálida e frágil a fazia parecer uma flor delicada que precisava de cuidados.
Mas quem poderia imaginar que, em sua essência, ela era uma rosa cheia de espinhos.
Sedutora e perigosa.
E quanto mais perigosa, mais sedutora.
Inevitavelmente, Nicolau Cruz estendeu a mão em direção a ela.
Ele acariciou suavemente o rosto dela.
Maria Gomes conteve a náusea e o impulso em seu coração, segurando a tesoura cirúrgica com força mortal.
Precisava esperar mais um pouco, deixar o inimigo relaxar completamente a guarda; o ideal seria um golpe fatal!
O que não faltava a Maria Gomes era paciência; ela sempre fora muito resiliente.
Ela continuou fingindo dormir, imóvel.
Nicolau Cruz apertou a bochecha dela.
— Dormiu mesmo?
Caso contrário, com o ódio e a repulsa que Maria Gomes sentia por ele, ela teria eriçado todos os espinhos no momento em que ele se aproximou, e jamais permitiria que ele a tocasse.
Imaginando a postura agressiva dela, os olhos de Nicolau Cruz sorriram, e ele suspirou:
— Só mesmo dormindo para você ser tão boazinha.
Mas quem poderia prever que, naquele exato momento, antes mesmo que a voz de Nicolau Cruz sumisse, Maria Gomes abriria os olhos repentinamente.
— Acordou?
Nicolau Cruz sorriu para Maria Gomes, sua mão ainda pousada no rosto dela.
Ele queria ver a reação de Maria Gomes.
E Maria Gomes lhe deu uma reação.
Quando ela pegou aquilo?!
Não era à toa que ele tinha procurado por todo lado e não achou.
E então Nicolau Cruz voltou.
Será que ainda dava tempo de fugir?
O médico empalideceu de medo e correu para chamar ajuda.
Olhando para o ferimento em seu abdômen, Nicolau Cruz teve vontade de dar um tapa na própria cara.
Todo dia caía em um golpe, e cada golpe era diferente.
Maria Gomes não era uma mulher que aceitava o destino.
Mesmo se morresse, era capaz de chutar a tampa do caixão e sair para se vingar dele.
— Solte!
— Sonhe!
Naquele momento, Nicolau Cruz teve que admitir.
Maria Gomes era mais louca do que ele.
Nicolau Cruz torceu o pulso dela até quase quebrá-lo, mas ela cerrou os dentes e suportou, recusando-se a soltar; inclusive, girou a tesoura dentro da ferida.
Por fim, sem outra opção, Nicolau Cruz acionou o controle da coleira.
Maria Gomes foi eletrocutada e desmaiou...

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Cinzas de Amor e Glória