Demorou alguns segundos para Alba entender o outro significado de 'encomendar um delivery'.
— Você não pensa em outra coisa senão bobagens. Aqui é o Bosque dos Ipês, e não um cabaré.
Matheus repreendeu num tom absurdamente sério.
Miguel estalou a língua com desdém.
Apenas Jefferson ergueu os olhos e fitou Alba, que havia acabado de entrar no cômodo.
Ela vestia uma jaqueta branca curta e uma saia lápis azul-marinho.
Eram roupas comuns.
Porém, a saia justa modelava suas curvas até o extremo da perfeição.
A cintura fina, os quadris arredondados e até os tornozelos expostos pela barra da saia eram incrivelmente atraentes.
Os longos cabelos caíam de forma despojada. Sem nenhuma maquiagem, o seu rosto possuía a pureza da lua fria suspensa na noite da montanha.
Jefferson ergueu a mão para afrouxar ligeiramente a gravata, com a garganta repentinamente seca:
— Venha sentar.
Miguel e Matheus estavam sentados de costas para a entrada e só se viraram quando ouviram a voz de Jefferson.
Ao ver Alba, Miguel ficou espantado e rapidamente voltou seu olhar para Jefferson.
Mas Jefferson o ignorou.
Miguel soltou uma risada abafada, puxou a cadeira ao seu lado e estampou um sorriso encantador:
— Dra. Aragão, por favor, sente-se aqui.
Matheus assistia à cena como se não tivesse nada a ver com aquilo. Tomou um gole do seu chá curativo e continuou em silêncio.
Ao notar a presença de Matheus, o olhar de Alba ficou tenso.
Anos atrás, toda vez que os amigos de Jefferson riam dela, Matheus estava presente.
Ele falava pouco, mas concordava ocasionalmente com eles.
Alba não tinha o costume de conviver muito com ele.
Mas guardava uma lembrança muito forte a seu respeito.
Houve uma época em que Jefferson havia encarregado Matheus de prescrever uma rotina extensa de suplementos naturais para equilibrar seu sistema reprodutivo e preparar seu corpo para uma gestação.
Naquele instante, Alba fingiu não o conhecer, e também não esboçou intenção de se sentar ao lado de Miguel. Ela apenas olhou para Jefferson e disse de forma respeitosa:
— Sr. Soares, eu vim buscar a minha bolsa.
— Bolsa?
Miguel, confuso, perguntou:
— O que está acontecendo aqui?
Jefferson atirou uma carta na mesa e explicou:
Parecia que ela estava sendo atirada em uma fogueira.
As palavras de Miguel foram um claro lembrete de que ela deveria manter distância.
Na verdade, a pessoa que mais queria manter distância ali era ela mesma.
Mas...
Alba lançou um olhar para o celular que o homem já tinha voltado a manusear, não hesitou mais, ignorou Miguel e foi sentar-se diretamente ao lado de Jefferson.
Miguel atirou as próprias cartas na mesa:
— Perder uma rodada não importa, vamos para a próxima.
Dito isso, os três iniciaram uma nova mão do jogo.
Alba estava sentada como se estivesse sobre espinhos. Quando fez menção de pegar o celular de volta, Jefferson aproximou-se de seu ouvido de forma repentina:
— Sirva um copo de chá para mim.
— Sim...
Aquela obediência que nascera de um ato reflexo fez com que ela mordesse o lábio em frustração.
Aquela cena e aquela atmosfera transportaram-na imediatamente para os velhos tempos, quando vivia sob as asas de Jefferson.
Naquela época, com exceção dos jantares de negócios, Jefferson costumava levá-la com ele a todos os compromissos privados e encontros entre amigos.

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