Murilo pareceu ligeiramente surpreso.
Ele só havia descoberto que Alba tinha uma filha pela boca do Sr. Soares pouco antes de sair.
Por algum motivo, durante a investigação sobre a Dra. Aragão, ninguém havia descoberto a existência de uma criança...
Ele não sabia onde o erro havia acontecido.
Nesse ínterim, Alba entrou em uma padaria local.
Comprou as coxinhas que os filhos mais amavam e uma sopa nutritiva. Pediu para embalar tudo e subiu as escadas.
Quando finalmente entrou no carro, mais de dez minutos haviam se passado.
— Desculpe a demora, Murilo.
Ela correu tanto que ainda estava um pouco ofegante.
De imediato, não percebeu que havia algo errado.
Até que, pelo espelho retrovisor, notou o olhar estranho que Murilo lhe lançava, percebendo que havia falado demais.
Ela e Murilo eram muito próximos no passado, por isso a chamou pelo primeiro nome por puro hábito.
Mas a Alba de hoje, em teoria, mal conhecia Murilo.
Chamá-lo pelo nome dava a impressão de que eram velhos amigos de longa data.
Contudo, ela não corrigiu a fala.
Se o fizesse, pareceria uma tentativa forçada de encobrir o deslize.
Mas Murilo não se importou.
Apenas não estava acostumado que estranhos o chamassem diretamente pelo nome, além dos seus parentes e amigos.
Foi meio esquisito quando Alba mencionou seu nome de repente.
— A criança está sozinha em casa?
Depois que o Rolls-Royce entrou em movimento, Murilo puxou assunto.
Alba confirmou com um aceno murmuroso.
O olhar de Murilo no retrovisor ganhou um traço de compaixão:
— Ela não sente medo de ficar sozinha?
— Eu instalei câmeras de segurança. Às vezes preciso sair à noite para fazer um trabalho extra e não tenho escolha a não ser deixá-los sozinhos...
— Deve ser muito difícil para a Dra. Aragão criar a filha sozinha.
Murilo lamentou com empatia.
Ele próprio foi criado apenas pela mãe, portanto compreendia perfeitamente a situação de Alba.
Alba deu um meio sorriso, mas não respondeu nada.
Teria ele construído o Bosque dos Ipês naquela encosta como forma de honrar as memórias do passado dos dois?
Não.
Alba balançou levemente a cabeça.
Jefferson não a amava.
Antigamente, ele a tratava como um animal de estimação mantido sob seus cuidados, movido apenas por um desejo de controle absoluto.
Talvez ele sequer soubesse que o Pico do Sabiá Celeste e aquela árvore específica eram o local onde o romance deles começara...
Afinal, ele era incapaz de enxergar naquela época.
Enquanto estava mergulhada em pensamentos, Murilo conduziu o carro para dentro da propriedade.
— Dra. Aragão, chegamos.
Murilo saiu e abriu a porta para ela.
O carro parou na entrada do prédio principal. Depois de descer, Alba seguiu Murilo pelo corredor e entrou diretamente na casa.
Assim que entrou na sala, escutou os sons característicos de um jogo de cartas.
E logo ouviu uma voz masculina, familiar e maliciosa.
— Jefferson, viver neste Bosque dos Ipês sem a companhia de mulheres é chato demais. Que tal encomendarmos um delivery de gatinhas?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casada Sem Saber, Amada Tarde Demais