ANASTASIA
Em apenas um dia, precisei sentar e ouvir muito mais interrogatórios do que jamais imaginei enfrentar na minha vida.
Todos os funcionários da loja, assim como os transeuntes, foram inquiridos de forma educada. Cada um foi questionado se, por acaso, havia observado uma mulher acompanhada de uma criança. Fizeram as perguntas acompanhadas da descrição da mulher e de Amie, mas ninguém, nem sequer uma alma, os havia avistado. Parecia que os dois haviam se evaporado no ar.
Não pude evitar que as lágrimas escorressem pelos meus olhos.
Pobre Amie. Ela mal tinha saído de meses confinada à cama de hospital para ser sequestrada por algum infeliz. Que injustiça com ela. Qual seria o benefício de tudo aquilo?
Fiquei imaginando como ela estaria naquele exato instante. Em que local teriam decidido a manter? Será que já havia se alimentado? Estaria com sede? Com toda certeza, estaria sentindo um frio cortante.
Observei os remédios dela, que repousavam imaculados no balcão, aguardando que sua dona os utilizasse. Passei a noite inteira os examinando e, em determinado momento, até Justin começou a chorar. Ele devia ter notado que sua irmã mais velha já não estava por perto.
Aiden e Dennis continuavam a tentar, procurando incessantemente maneiras de a encontrar. Em poucas horas, ambos já haviam confeccionado cartazes com a foto de Amie e um pedido de resgate para quem a encontrasse. Espalharam esses cartazes em diversos pontos da cidade.
Surpreendentemente, trabalharam em perfeita sintonia e, por um breve instante, me questionei sobre o motivo de o desaparecimento de Amie ter provocado essa união inusitada entre eles.
A loja foi gentil o suficiente para nos fornecer uma cópia das imagens que registraram a mulher deixando o estabelecimento. Sempre que eu não estava tentando fazer Justin parar de chorar ou cuidando dele, me encolhia sobre o celular ou laptop com os olhos semicerrados, analisando o vídeo na esperança de identificar a misteriosa mulher.
Em um dado momento, comecei a me perguntar se aquela mulher não seria a própria Clara. Seria aquela estranha e doentia maneira de me retribuir? Confidenciei a Dennis, que me fitou por um longo instante.
— Então, por que ela ligaria para mim se fosse ela? — Indagou, a que respondi com um simples encolher de ombros:
— Para que ela não pareça suspeita?
Dennis meditou sobre minha resposta por alguns instantes e, então, balançou a cabeça.
— Não, querida. Tenho certeza de que não é a Clara.
Horas após o súbito desaparecimento de Amie, Dennis e eu recebemos um vídeo em nossos celulares.
Cobri a boca, com lágrimas escorrendo pelo rosto, ao assistir Amie surgir na tela.
— Mamãe. — Ela chamou suavemente.
Apesar do sorriso contido em seus lábios, eu sabia, e todos nós sabíamos, que ela estava apavorada e, certamente, havia chorado, pois seus olhos já estavam inchados.
Senti um leve alívio ao constatar que ela se encontrava bem; não apresentava arranhões, o que indicava que não fora tocada ou ferida.
Alguns segundos depois, alguém posicionou o rosto em frente à câmera, obstruindo nossa visão de Amie.
Claramente, se tratava do sequestrador; seu rosto estava obscurecido e a voz estava distorcida por intensas edições.
— Se vocês querem que ela retorne. — Declarou, devagar, uma voz eletrônica. — Tragam a quantia de trinta milhões de reais.
— Que porra é essa! — Murmurou Dennis, que ainda me abraçava. Ao meu lado, Aiden também resmungava um palavrão abafado.
— Deve estar brincando comigo. — Murmurou. — Não vamos envolver a polícia, Dennis. — Afirmou com firmeza e decisão.
Era a primeira vez que eu ouvia Aiden pronunciar o nome de Dennis desde o início daquele infeliz fiasco.
— Temos que. — Dennis insistiu. — Aiden, pense bem: o que você acha que eles planejaram naquele local duvidoso que informaram? Precisamos envolver as autoridades.
Também foi a primeira vez que Dennis pronunciou o nome de Aiden.
— O que quer dizer com “precisamos envolver as autoridades”? E se fizerem mal à Amie? Melhor entregar o dinheiro que pediram e recuperar a menina.
— Não podemos simplesmente fazer isso, nós...
— Você se importa com ela de verdade, do jeito que diz se importar? — Os olhos acusadores de Aiden dispararam para Dennis.
— Como ousa dizer isso? — Dennis se pôs de pé, tomado pela raiva.
Eu cobri a cabeça com as mãos, murmurando palavrões para mim mesma.
— Eu me importo com Amie mais do que você jamais se importaria. — Ouvi Dennis continuar, exaltado. — Você acha que eu não quero simplesmente a pegar e a trazer de volta para casa? Acha que fico feliz em vê-la com algum estranho cruel? Estou tentando evitar mais uma crise aqui, meu. Se essas pessoas a levaram, claramente têm um objetivo. E se voltarem para pegar o Justin ou a Ana? E então? Teríamos que pagar outra quantia absurda, de novo!
— Olha, tudo isso…
— Chega! — Gritei. — Vocês dois fechem a boca e vamos tomar uma decisão.

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