Sexto andar do residencial, escritório de Tereza.
A porta estava entreaberta, deixando escapar uma fresta de luz amarela e quente. Caio estava do lado de fora, segurando aquela marmita requintada de sândalo vermelho na mão, como se estivesse segurando algo extremamente frágil e precioso.
Ele respirou fundo.
Respirou fundo de novo.
Renan estava a três passos de distância, vendo o chefe com aquela cara de quem ia enfrentar um grande inimigo, e não pôde deixar de avisar em voz baixa:
— Sr. Mendes, se o senhor continuar respirando assim, vai acabar com todo o oxigênio deste andar.
Caio virou a cabeça e lançou-lhe um olhar frio.
Renan calou a boca imediatamente e fez um gesto de zíper na boca.
Caio virou a cabeça de volta, levantou a mão e bateu levemente na porta três vezes com os nós dos dedos.
— Entre.
A voz de Tereza veio de dentro, suave e calma.
Caio empurrou a porta e entrou.
Tereza estava sentada atrás da mesa, olhando para a tela do computador, com uma xícara de chá frio ao lado. Ela havia trocado por uma roupa cirúrgica limpa, o cabelo ainda preso em um rabo de cavalo arrumado, com olheiras fracas sob os olhos, mas o olhar ainda claro.
Ao ver que quem entrou foi Caio, ela parou por um momento e então soltou o mouse.
— Sr. Mendes. — Ela se levantou. — Veio ver a senhora Mendes? A situação dela hoje está estável, e os resultados dos exames da tarde foram muito bons...
— Não. — Caio a interrompeu.
Tereza ficou surpresa.
Caio entrou e colocou a marmita que segurava na mesa dela. O movimento foi muito leve, como se estivesse colocando um item valioso.
— Vim procurar você. — Ele disse.
O escritório ficou em silêncio por alguns segundos.
Tereza olhou para a marmita requintada de sândalo vermelho, depois olhou para Caio, com um olhar confuso.
— Sr. Mendes, isso é...
— Jantar. — Caio disse. — Do Restaurante Pavilhão de Seda. Você trabalhou duro cuidando da minha mãe nesses dias.
Ele falou de forma muito breve, com um tom tão duro que parecia estar fazendo um relatório de trabalho.
Tereza ficou em silêncio por dois segundos. Quando estava prestes a dizer algo, Caio se adiantou novamente:
— E também, eu soube do que aconteceu hoje à tarde. A minha tia... Adriana, ela disse aquelas coisas.
A voz dele baixou, com uma tensão imperceptível:
— Desculpe.
Tereza olhou para ele, sem dizer nada.
Caio encontrou o olhar dela e disse seriamente:
— Você não precisa se importar com as coisas que ela disse. Tirando o fato de ter o sobrenome Mendes, na verdade ela não tem nenhuma relação comigo nem com a minha mãe.
Ele fez uma pausa e acrescentou:
— A situação da família Mendes é um pouco complexa. Algumas pessoas são parentes de sangue, mas... é só laço de sangue mesmo.
Tereza abaixou os olhos, os dedos tocando levemente a borda da marmita na mesa.
— Sr. Mendes, — Ela começou, a voz ainda suave. — Você não precisa se desculpar. Eu já resolvi o assunto da tarde.
— Eu sei. — Caio disse. — O Dr. Wagner me contou tudo. Você disse que ia chamar a polícia e deixá-la passar um tempo lá dentro.
O canto da boca dele se moveu, como se estivesse segurando um sorriso:
— Fez muito bem.
Tereza levantou os olhos para ele, um pouco surpresa.
Caio encontrou o olhar dela, e aquele traço de sorriso desapareceu. Ele ficou ali, como se estivesse segurando alguma coisa para dizer, mas sem saber por onde começar.
O escritório ficou em silêncio por alguns segundos.
Então Caio falou, com a voz bem suave, mas pronunciando cada palavra com muita força:
— Ela disse que você não seria boa o suficiente para mim.

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