Aos oito anos, ele se ajoelhou fora da sala de emergência, ouvindo seu pai no telefone no fim do corredor: — Entendi, eu chego mais tarde. Olha… acho que ela não vai morrer, não é?
O tom era casual, como se falasse de algo sem importância.
Aos doze anos, ele tirou o primeiro lugar na cidade e voltou para casa animado com o boletim. O pai apenas olhou e disse: — Seu irmão tirou o primeiro lugar da série desta vez, ele é melhor que você.
Mais tarde ele descobriu que o "irmão" que o pai mencionou era o filho daquela mulher de fora.
Aos quinze anos, a mãe teve o terceiro ataque cardíaco e foi para o hospital. Ele ficou de guarda fora do quarto por três dias e três noites, e o pai não apareceu nenhuma vez. Depois ele foi procurar o pai e ouviu-o dizer ao assistente fora do escritório: — Deixe-a se recuperar, não cause mais problemas. Eu pago as despesas médicas.
Como se a existência da mãe fosse apenas um problema que precisava ser pago.
— Sr. Mendes... — A voz de Dona Célia soou atrás dele, com um tom de choro. — Sente-se um pouco, ficar em pé assim cansa muito.
Caio Mendes balançou a cabeça.
Ele não podia sentar. Tinha medo de que, se sentasse, lembraria das coisas que o pai lhe disse naqueles anos:
— Você e sua mãe são um peso morto.
— Se não fosse pela proteção do seu avô, acha que estaria onde está hoje?
— Sua mãe doente vai morrer mais cedo ou mais tarde. É melhor se acostumar logo.
E a frase mais cruel: — Caio Mendes, você é um amaldiçoado. Todas as pessoas que te amam serão levadas por você.
Ele não acreditava antes.
Mas agora, a mãe estava lá dentro, com a vida em perigo.
Será que o meu pai realmente tinha razão?
Será que ele realmente afastaria todos que o amavam?
O celular vibrou de novo. Desta vez era uma mensagem de Renan: [Sr. Mendes, o avião pousa em meia hora.]
Caio Mendes encarou a mensagem, os dedos tremendo levemente.
Faltava meia hora.
Essa meia hora poderia ser a espera mais longa de sua vida.
---
Às quatro da manhã, o horizonte começou a clarear.
Quando o avião pousou no aeroporto de Cidade S, o céu no leste já mostrava um azul-acinzentado claro. Tereza Viana desceu a escada, e Hugo já esperava ao lado do carro.
— Dra. Tereza! — Hugo se aproximou rapidamente. Ele era quase idêntico a Renan, mas com uma aura mais calma. — O carro está pronto, e tudo no sanatório já foi organizado.
Tereza Viana assentiu e entrou no carro. O veículo acelerou em direção ao sanatório, e o céu lá fora foi clareando aos poucos.
Quatro e meia da manhã, sanatório.
Fora da sala de emergência, Caio Mendes continuava de pé. Suas costas estavam retas, mas, olhando de perto, era possível ver suas mãos tremendo levemente ao lado do corpo.
Passos apressados vieram do fim do corredor.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: As Múltiplas Identidades Secretas Da Ex-esposa