Onze horas da noite, Aeroporto Internacional de Xangai.
O jato particular de Caio tinha acabado de pousar e as escadas ainda nem estavam totalmente fixadas quando ele desceu apressado. Hugo já o esperava na pista e foi logo ao seu encontro quando o viu.
— Sr. Mendes. — O rosto de Hugo estava ainda mais sério do que sua voz soava no telefone. — Lá na clínica...
— Direto para a clínica. — Caio o interrompeu, sem parar de andar.
O carro preto acelerou na noite. Dentro do veículo, Caio olhava para a paisagem da rua que passava rápido pela janela, apertando os dedos inconscientemente. Na tela do celular, a última mensagem enviada por Dona Célia há meia hora ainda estava acesa:
[Sr. Mendes, a Sra. Mendes não para de chorar, não consigo acalmá-la. Ela disse agora pouco que o peito estava doendo, o médico veio dar uma olhada e disse que pode ser por causa da emoção forte...]
Não havia mais nada depois disso.
Caio fechou os olhos e respirou fundo. A cena daquela noite chuvosa há vinte anos, quando a mãe teve o primeiro ataque cardíaco e foi levada para a sala de emergência, voltou à sua mente. Naquela época, com oito anos de idade, ele ficou ajoelhado do lado de fora da sala de emergência ouvindo os alarmes dos equipamentos, e ali sentiu o verdadeiro medo pela primeira vez na vida.
— Sr. Mendes. — A voz de Hugo interrompeu suas lembranças. — Chegamos.
O carro parou em frente a um prédio branco. Era a clínica particular mais luxuosa de Xangai, que Caio havia construído especialmente para a mãe três anos atrás, equipada com os aparelhos médicos mais avançados e a melhor equipe de saúde. Ele achou que, assim, conseguiria protegê-la.
Ele estava errado.
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Terceiro andar da clínica, do lado de fora da sala de reanimação.
O corredor estava todo iluminado, mas assustadoramente silencioso. Dona Célia estava sentada no banco, com as mãos bem apertadas e os olhos vermelhos e inchados. Ao ver Caio se aproximar, ela se levantou na mesma hora, com a voz trêmula: — Sr. Mendes...
— Como está a minha mãe? — A voz de Caio estava até calma, mas a ansiedade em seus olhos não podia ser escondida.
As lágrimas de Dona Célia caíram de novo: — A culpa é toda minha... a culpa é minha por não ter impedido o Sr. Ricardo à tarde... A Sra. Mendes... ela não conseguiu dormir à noite, ficou chorando, falando sobre as coisas desses últimos anos... depois disse que o peito estava doendo... Quando o médico chegou, ela já... já...
Ela não conseguiu continuar e cobriu o rosto, chorando.
Caio estendeu a mão e segurou o ombro dela: — Dona Célia, a culpa não é sua.
Sua voz foi muito suave, mas Dona Célia percebeu que aquelas palavras eram sinceras. Ela cuidava de Magnólia na família Mendes há vinte anos, e sabia melhor do que ninguém como era a relação entre mãe e filho — Caio era frio com todo mundo, mas sempre guardou aquela ternura apenas para a mãe.
— Há quanto tempo os médicos entraram? — Caio perguntou.
— Quase duas horas. — Dona Célia disse entre soluços. — Saíram uma vez no meio, e disseram... disseram que a situação não era boa.

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