Marília havia escondido discretamente o quadro de César.
A Quinta da Harmonia era enorme; para percorrê-la por completo, seriam necessários pelo menos dois dias, e ainda assim não era certo que alguém conseguisse encontrar todas as câmeras de segurança ocultas ao redor.
Inácio havia trocado de roupa, agora vestindo trajes casuais, e desceu novamente. Sua figura alta e imponente projetava-se na sala, enquanto seus olhos negros refletiam a cena de mãe e filho brincando sentados sobre o tapete.
O momento era sereno, mas por algum motivo, despertava uma leve inveja.
César percebeu sua presença e rapidamente o cumprimentou: “Senhor, você quer brincar com a gente?”
Há pouco, ao apenas dar alguns chutes no “pai relapso”, sentira que aquilo não era suficiente para aliviar sua raiva.
Marília quis impedir César, receando que, ao conviverem mais, tanto o menino quanto Inácio acabassem descobrindo a verdadeira identidade um do outro.
Afinal, o laço de sangue estava evidente.
Infelizmente, Inácio já caminhava em direção a eles: “Estão brincando de quê?”
César pensou rápido.
“Vamos brincar de casinha? Você faz o papel de papai, a mamãe faz de mamãe, e eu sou o filho de vocês.”
O rosto de Marília empalideceu no mesmo instante.
Inácio também ficou surpreso.
Aquele garoto, por que estava agindo como uma menina? Como podia gostar de brincar de casinha?
“Senhor, você não vai achar que estou tirando vantagem, vai? Meu pai é um grande empresário, você está levando vantagem nisso.” César resmungou, fazendo-se de generoso.
“César, não ponha o senhor em apuros…”
Antes que Marília terminasse a frase, Inácio a interrompeu: “Está bem, eu faço o papel de seu pai.”
Assim que ouviu o consentimento, César agarrou-se à perna dele, chorando copiosamente e esfregando o rosto nas calças recém-trocadas de Inácio: “Buá, papai, César sentiu tanta falta de você, sentiu tanto que quase morreu de saudade.”
Inácio, por instinto, quis afastá-lo, mas, por algum motivo, ao ouvir o menino chamá-lo de pai, toda a sua irritação dissipou-se.
Marília, ao ver César abraçado a Inácio e chamando-o de pai, sentiu um nó na garganta.

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