Ao ver que Heitor continuava sentado no sofá, sem a menor intenção de se levantar, Judite lançou-lhe um olhar de reprovação.
— Não precisa. — Cecília já havia entrado e colocado a cesta de frutas sobre a mesa de cabeceira ao lado da cama.— Não disseram que o senhor receberia alta em poucos dias?
Já tinham se passado vários dias, e mesmo assim Heitor pediu que ela trouxesse mais roupas. Era evidente que a internação ainda iria se prolongar.
O casal de idosos voltou o olhar, ao mesmo tempo, para Heitor, claramente insatisfeito.
— Alguns indicadores de saúde ainda estão fora dos parâmetros. Ele não pode receber alta. — Heitor explicou em tom tranquilo.
Ele havia providenciado um check-up completo para o avô, e vários exames apresentaram resultados acima do normal. A recomendação médica era que permanecesse internado em observação por, pelo menos, mais uma semana.
— Eu entendo de medicina. São só problemas antigos. Quando voltar para casa, preparo algumas fórmulas de ervas medicinais e fico bem.
Sempre que o assunto era alta hospitalar, Roberto ficava impaciente.
— Não fique nervoso. Ficar mais alguns dias aqui não vai lhe fazer mal. Ele só está preocupado com você. — Judite acariciou-lhe o peito, tentando acalmá-lo.
— Preocupado comigo? — O velho bufou. — Ele só está com medo de eu morrer e o casamento dele acabar sendo adiado. — Seu temperamento teimoso aflorou novamente. — Fique tranquilo. Mesmo que eu esteja vivo só por um fio, vou aguentar até ver seu casamento acontecer antes de fechar os olhos.
O quarto, até então silencioso, pareceu se encher de tensão. Na verdade, era uma tensão unilateral. Roberto era o único claramente descontente com Heitor.
— Não é só o casamento. Você ainda precisa viver para conhecer seu bisneto... — Judite apressou-se em completar.
— Exatamente. — Cecília aproveitou para reforçar as palavras de Judite. — Então cuide bem da saúde e escute o Sr. Heitor.
Roberto soltou um resmungo, mas sua irritação continuava direcionada ao neto.
As sobrancelhas de Heitor franziram de repente, talvez por raiva da desobediência de Roberto, ou algum outro motivo que Cecília simplesmente não conseguia decifrar.
De qualquer forma, sua expressão ficou visivelmente mais fechada.
— Sr. Roberto, Sra. Judite, vou voltar para a empresa. Venho visitá-los outro dia. — Percebendo o clima, Cecília aproveitou a oportunidade para se despedir.

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