O sorriso no rosto de Heloísa se desfez.
As emoções reprimidas por vários dias foram incendiadas por algumas palavras dele.
Aquela bola de fogo carregada de energia negativa rolou pelo fundo do coração como se estivesse sendo frita, subindo pelas veias e atingindo direto o cérebro. "Você me faz feliz, eu também te faço feliz, isso é um problema?"
"O que você quer fazer, como quer escolher, com quem quer se encontrar, sou eu quem pode decidir por você?"
"Nélio, eu já colaborei o suficiente com você, não fui gentil, obediente, compreensiva e tolerante o bastante com você?"
E mesmo assim, ele ainda fazia birra com ela.
Ele, com que cara fazia isso!
Nélio olhou para ela, vendo sua expressão furiosa.
Uma pontada de dor atravessou seu peito.
Após um longo silêncio, ele finalmente suspirou levemente: "Fui eu quem perturbou o seu humor, durante todo esse tempo não consegui te fazer feliz. Me desculpe, não conseguir construir a sua confiança é culpa minha, é porque não fui bom o bastante."
Heloísa ficou sem palavras.
A raiva, como se tivesse se perdido, parou subitamente.
Não estavam eles agora em um impasse direto?
Ela queria enxergar as emoções no fundo dos olhos dele, mas ele abaixou o olhar, e ela só conseguiu ver uma sombra projetada sob suas sobrancelhas.
Nélio pegou a ligação da manhã e mostrou para ela.
"Evelyn já está noiva. Eu, ela e o noivo dela somos bons amigos. Não entendo por que você interpretou mal, talvez a influência negativa do meu comportamento tenha afetado seu julgamento. De qualquer forma... não se torture, fique feliz, Heloísa sempre foi desapegada."
Heloísa mordeu os lábios, constrangida.
Ela olhou para a bolsa nas mãos. "...Obrigada por explicar, eu entendi."
Nélio observou o leve tremor dos cílios dela, delicados como asas de borboleta.
Ele deu um passo à frente. "Ainda está triste? Está brava porque acha que não tem direito de escolher? Então eu te dou o direito de escolha: ser minha namorada ou não querer mais, tudo depende de você."
Heloísa prendeu a respiração.
No instante em que ergueu o olhar, sentiu um calor subir aos olhos.
Como se fosse algo que a cegava.
Quando olhou de novo, ele já havia se endireitado e voltado para o quarto.
No corredor, ela encarou aquela porta, os pensamentos mergulhados em um vazio imenso.
Ela tinha o direito de decidir?
Luan a segurou.
Vendo que ela estava um pouco distraída, ele não conseguia compreendê-la.
Naquela noite, dois dias atrás, ela não tinha sido tão fria e impiedosa? E o senhor Nélio estava do lado de fora da porta.
Ele também não sabia quando exatamente ele tinha chegado, mas aquelas palavras, quem conseguiria ouvir sem se abalar?
Mesmo sem ter coragem de olhar para trás, ainda conseguia sentir aquela atmosfera de dor e repressão. "Sofrendo" parecia exagero para o senhor Nélio, mas ele... parecia realmente magoado.
Nesses dois dias, ele parecia estar bem, arrumava o quarto dele, mas todos os dias havia garrafas de cerveja.
O senhor Nélio não gostava de fumar, nem tinha vício em álcool, sempre foi muito autocontrolado.
Por mais pressionado que estivesse, nunca teve o hábito de se embriagar para extravasar.
Bem, beber um pouco não faz mal... afinal, é quase como se tivesse levado um fora.
Os dois chegaram ao térreo.
Helder estava no quintal, sentado com as pernas cruzadas, comendo uma fatia de pizza.
Ele acenou: "Já estão prontos para sair?"

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