Daniela achou graça e disse:
— O Victor não é um objeto de minha propriedade. Ele é uma pessoa, um ser humano vivo, com seus próprios pensamentos e atitudes. De quem ele gosta e com quem vai se casar são escolhas que cabem inteiramente à liberdade dele.
— Eu não tenho como influenciar as decisões dele, tampouco posso tratá-lo como um pertence meu e simplesmente entregá-lo a outra pessoa.
— Senhorita Tassia, se você gosta dele, vá em frente e tente conquistá-lo. Se vai conseguir ou não, o problema é seu. Eu realmente não posso ajudar.
— E se por acaso você fracassar e, por não conseguir se casar com o Victor, decidir morrer de amor, isso também é um problema seu. Significaria apenas que você é frágil demais, que se apega mas não sabe abrir mão. Se quer morrer por causa de um romance, que morra. Eu não vou derramar uma lágrima.
— Por que eu carregaria a culpa de um assassinato? Não fui eu quem mandou você ir atrás do Victor, nem fui eu que coloquei uma faca no seu pescoço. Se você mesma quer acabar com a própria vida, o que eu tenho a ver com isso? Não vou carregar esse peso na consciência.
— No entanto, se a Senhorita Tassia faz tanto drama a ponto de querer morrer por isso, eu sinto muita pena dos seus pais. Eles tiveram um trabalho imenso para criá-la até essa idade, e você ameaça jogar tudo fora por causa de um homem.
— Teria sido melhor seus pais não tivessem tido filha nenhuma, em vez de ter uma como você.
— ...Você está me ofendendo! — retrucou Tassia.
— Não estou te ofendendo, estou apenas sendo sensata com você.
Tassia bateu na mesa com força.
— Você está me ofendendo sim! Você disse que seria melhor se meus pais tivessem parido uma pedra em vez de mim!
Ela continuou esmurrando a mesa, gritando e xingando Daniela.
Daniela pegou seu copo de café, se reclinou relaxadamente na cadeira giratória preta e tomou um gole devagar. Com uma expressão de pura tranquilidade, ela ficou observando Tassia bater na mesa e berrar, como se assistisse a uma peça de teatro.
Tassia ficou ainda mais furiosa. Os xingamentos pioraram e as pancadas na mesa ficaram mais violentas.
Ela só parou quando percebeu que as palmas das mãos estavam doendo muito.
Depois de tanto gritar, a garganta secou.
Seu rosto ficou vermelho como um pimentão, pura cólera acumulada, mas não havia absolutamente nada que pudesse fazer contra Daniela.
Afinal, não era de hoje que conhecia Daniela. Sendo uma grande amiga de Cíntia, ela já estava familiarizada há muito tempo com a enteada da Família Vieira.
Na memória dela, Daniela sempre tinha sido covarde, medrosa e fácil de intimidar. Quando via Wilson e Cíntia, agia como um rato diante de um gato: fugia se pudesse e, se não houvesse escapatória, murmurava um cumprimento e saía correndo.
Quando foi que Daniela havia se tornado tão implacável?
Mesmo depois de gritar até secar a garganta, Daniela permaneceu serena, bebendo seu café com desdém. Aquela frieza não era algo que qualquer pessoa comum possuísse.
O tempo muda as pessoas a ponto de não as reconhecermos mais. Tassia finalmente compreendeu o peso dessa verdade ao olhar para Daniela.
A versão atual de Daniela a forçava a encará-la com novos olhos.
Não era à toa que Cíntia vinha perdendo terreno para Daniela aos poucos. Era Daniela quem havia ficado forte.

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