Daniela o encarou. Queria dizer algo, mas as palavras lhe faltaram.
Na vida passada dela, ela tinha tido pouco contato com Victor. Sabia apenas que ele nunca estivera envolvido em escândalos amorosos; não faltavam mulheres interessadas nele, mas ele nunca correspondeu aos flertes de ninguém.
Até o momento de sua morte na vida anterior, tanto Victor quanto Henrique continuavam solteiros, e nunca se ouviu falar que eles tivessem interesse romântico por alguma pessoa específica.
No entanto, a amizade entre Victor e Henrique era tão próxima que os dois eram frequentemente vistos juntos, jantando, bebendo ou viajando. Quando todas as mulheres que tentaram conquistá-los falharam, alguns rumores maliciosos começaram a circular, insinuando que ambos eram gays.
E diziam que essa seria a verdadeira razão pela qual eles rejeitavam todas as pretendentes.
Daniela também havia escutado esses boatos a respeito da sexualidade dos dois.
Em seus momentos de paz com Francisco, ela chegou a perguntar a ele em particular se seus dois melhores amigos formavam um casal.
Na época, Francisco a repreendeu por ter uma pensamentos ruins, afirmando que seus amigos eram héteros, e não gays.
Ela ainda havia rebatido usando as fofocas que rolavam soltas por aí. Francisco, então, garantiu que a relação entre Victor e Henrique era puramente de irmandade e que eles definitivamente não eram homossexuais. Ele chegou a brincar dizendo que, se fossem, ele jamais teria coragem de ser amigo deles.
Afinal, o próprio Francisco era considerado um dos homens mais bonitos de toda a cidade.
Depois de renascer e descobrir que Henrique era apaixonado por Janaina, Daniela passou a acreditar nas palavras que Francisco dissera na vida passada. Victor e Henrique eram apenas homens com gostos semelhantes e uma amizade profunda, como irmãos.
Eles definitivamente não eram gays.
A única coisa que ela jamais poderia ter imaginado era que Victor, na verdade, gostava dela.
Será que o fato de Victor não ter se casado na vida anterior tinha algo a ver com ela? Pensando bem, o convívio dos dois no passado havia sido ainda mais escasso. Além disso, a antiga Daniela vivia brigando com Cíntia; aos olhos deles, ela não passava de uma mulher histérica e problemática.
Alguém capaz de fazer qualquer loucura apenas para conquistar a atenção de Francisco.
Como Victor poderia ter se apaixonado por aquela versão dela?
— Victor, você é uma pessoa incrível.
Daniela murmurou suavemente.
Até mesmo Elisa costumava dizer que a devoção de Victor por ela era intensa, porém comedida. Ele não a pressionava, não a sufocava e a respeitava profundamente.
Muito diferente de Francisco, que não sabia o que era respeito. Ele só sabia persegui-la incansavelmente, perder a cabeça, machucá-la, e depois voltar pedindo perdão. Do que adiantava aquilo?
Em conversas particulares, Elisa lhe dizia que, se ela não pudesse se casar com alguém da Família Neves, deveria escolher Victor. Segundo ela, apenas ao lado dele Daniela encontraria a verdadeira felicidade.
Até aquele momento, Elisa ainda tentava convencer Daniela de vez em quando a dar uma chance para os seus irmãos. Embora o mais velho já estivesse apaixonado por alguém, os outros rapazes da família ainda estavam com o coração livre.
Se Daniela quisesse, Elisa reuniria todos os seus irmãos no mesmo instante, apenas para que ela pudesse escolher à vontade.
A obstinação de Elisa em tentar levá-la para a Família Neves deixava Daniela um pouco assustada. Em várias ocasiões em que fora convidada para jantar com a família, ela inventou desculpas de que estava ocupada e recusou educadamente.
Ela sabia muito bem que o verdadeiro intuito de Elisa era juntá-la com um dos jovens mestres da Família Neves.
— Não é nada demais, eu já costumava trabalhar até altas horas de qualquer maneira. Como você agora também é dona do próprio negócio, deve entender como é isso — disse ele.

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