— Não se preocupe com isso, eu só pedi para ficarem de olho porque também adoro uma fofoca quentinha — explicou Victor. — Eu também nunca gostei do Wilson e da esposa, mas no passado eu não podia falar mal deles na frente do Francisco, pois ele os protegia muito.
— Ele não é cego para a índole daqueles dois, mas sempre os defendeu. No fundo, nem eu nem o Henrique temos, pra ele, o mesmo peso que Wilson e a esposa.
Daniela bebeu metade da sua água.
— Eles cresceram juntos, é uma amizade de quase trinta anos. Como nós, que somos vistos como pessoas de fora, poderíamos nos comparar a isso?
— Basta envolver o nome da Cíntia que ele perde a cabeça. Ele joga fora o bom senso e os próprios princípios. Se for pela Cíntia, ele é capaz de fazer qualquer loucura.
Enquanto falava, Daniela deu um sorriso autodepreciativo: — E, apenas para ter a chance de vê-la, ele é capaz até de machucar uma mulher que o amava de todo o coração.
No passado, ela realmente havia amado Francisco com toda a sua alma.
— Trim... trim...
E, como se tivessem acabado de falar nele, o nome dele apareceu na tela.
Daniela sentiu uma imensa vontade de não atender, mas após o telefone tocar três vezes seguidas, ela finalmente cedeu.
— O que você quer?
Sua voz era fria e distante.
— Daniela, você já saiu do trabalho? — Esperando na porta da empresa dela, Francisco sentiu um aperto no peito ao ouvir aquele tom tão gélido. Temendo que ela desligasse na cara dele, Francisco engoliu o desconforto e tratou de dizer logo:
— Estou aqui na frente da sua empresa te esperando. A vovó me ligou e pediu para irmos jantar em casa.
— Ela mandou a cozinha preparar vários dos seus pratos favoritos e me ordenou que te levasse de qualquer jeito.
Francisco sabia que Daniela ainda guardava um grande respeito e consideração por sua avó.
Ao usar a avó como desculpa, ele tinha a esperança de convencê-la a voltar com ele para jantar.
— Estou sem tempo.
— Diga à Vovó Pinto que muito em breve eu deixarei de ser a neta por afinidade dela e que não precisa mais me chamar para jantar.
— Francisco, na próxima quinta-feira o nosso período de reflexão do divórcio termina. Espero que você cumpra a sua palavra.
Francisco permaneceu em silêncio.
— Por favor, nos traga duas porções de arroz primeiro — pediu Victor ao garçom quando este trouxe um dos pratos à mesa.
Quando ele saía para comer, fazer compras e passar as férias ao lado de Cíntia, por acaso ela dizia alguma coisa?
Naquela época, eles ainda eram marido e mulher.
Durante todo o tempo em que estiveram casados, ele a ignorou como esposa, não deu a mínima para os seus sentimentos e mimava Cíntia acima de qualquer coisa.
Ele achava que tinha o direito de cometer os maiores absurdos, mas condenava-a pelo menor dos gestos.
Agora eles estavam prestes a se divorciar oficialmente. Na próxima quinta, o divórcio enfim sairia, e depois disso, não teriam mais absolutamente nada um com o outro.
Mas, mesmo assim, ele continuava querendo ditar as regras.
Quem ele pensava que era para querer se meter tanto assim na vida dela?
Ao ouvir o som da chamada encerrada por Daniela, Francisco ficou furioso.
Eles estavam jantando juntos agora. Será que logo começariam a andar de mãos dadas, a se abraçar, se beijar, e depois acabariam na cama?
Mesmo depois de tanto tempo juntos, entre namoro e casamento, ele sequer tinha ido para a cama com ela!
Daniela era dele!

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