Eu poderia e deveria ter me irritado profundamente com a cobrança de Johnny. Mas não fiz isso. Pelo contrário... sentei-me confortavelmente na poltrona que havia por perto, naquele quarto escuro, cujas janelas certamente não eram abertas havia dias. O lugar tinha cheiro de sujeira, drogas e canalhice.
— Não apareci para ajudar você porque não sou sua babá.
Johnny arregalou os olhos, certamente surpreso com a minha resposta.
— Quanto a Oliver, espero que tenha sido a primeira e a última vez que ele ajudou você. E, caso ele tente fazer isso novamente, eu mesma o impedirei. Sabe por que, Johnny? Porque você não merece ser ajudado.
— Mas... — Ele meneou a cabeça enquanto me encarava, confuso. — Você sempre me ajudou.
— Não vou mais ajudar. Tenho meus próprios filhos para cuidar e não perderei mais tempo cuidando dos filhos dos outros.
— Eu sou seu irmão, porra!
— Irmão, sim, filho não. — Levantei-me. — Agradeça a Oliver pelo que ele fez. Ele não tinha obrigação nenhuma de livrar você da cadeia. Aliás, acho que você deveria ficar preso por algum tempo. Pense pelo lado positivo: pelo menos passaria alguns dias limpo.
— Você fala isso porque tem uma vida perfeita.
Eu ri, com escárnio:
— Vivo fingindo há anos. Aliás, há muito mais tempo do que você imagina, porque o fingimento não começou apenas depois que me casei com Oliver. Passei por coisas muito piores do que você. E nem por isso tentei resolvê-las recorrendo ao mesmo caminho do homem que causou todos os meus problemas.
— Você está sendo egoísta, Jack.
Gargalhei:
— “Eu” estou sendo egoísta? Você monopoliza a nossa mãe há anos. E eu sou a egoísta desta história?
Johnny não disse nada.
— Eu deveria odiar a forma como nossa mãe me usa para livrar você dos seus problemas. No entanto, meu lado de mãe ainda tenta compreendê-la, porque já me perguntei o que faria se fosse um dos meus filhos. Mas estou ficando cansada de tudo isso, Johnny. Você tem uma vida inteira pela frente... e, ainda assim, faz questão de desperdiçá-la dia após dia.
— Eu...
— Não precisa dizer nada. Poupe suas palavras.
Caminhei em direção à porta. Antes de sair, parei e falei em alto e bom som:
— Quero mais é que você se foda.
“Que se foda.”
Sim, eu disse aquilo. E nunca imaginei que me sentiria tão bem por mandar meu irmão se foder.
Assim que passei pela porta, bati-a com força. Então, meu coração acelerou e o ar quase me faltou.
— Oi... filha.
Meus lábios tremeram. Mordi-os com força, tentando manter a sanidade e impedir que tudo o que eu sentia escapasse de uma só vez.

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