Sentamos na sala secundária, no andar de cima, enquanto ela me contava tudo o que tinha acontecido. Enquanto minha mãe falava, eu a observava. Ela já não tinha nenhuma vaidade. Assim como eu, destruiu a própria feminilidade por causa de um homem. Ou melhor, de dois. Porque tinha Jaziel e Johnny, que consumiam todo o seu tempo e não permitiam que ela cuidasse de mais nada, muito menos de si mesma.
Durante muito tempo, não me atrevi a usar nada que mostrasse meu corpo. E aquilo vinha da culpa. Uma culpa que nunca deveria ter sido minha. Eu tinha apenas doze anos quando tudo aconteceu.
Hoje, eu entendia que não importava o que estivesse vestindo naquele dia. Tudo teria acontecido exatamente da mesma forma.
Também havia o fato de Oliver nunca sequer ter olhado para mim. Aquilo destruiu ainda mais a minha autoestima. Competir com Brianna era injusto. Ela era uma modelo famosa, tinha um corpo escultural e um dos rostos mais requisitados pelas maiores agências do mundo.
Eu... era apenas uma mãe em tempo integral, que nunca se preocupou com nada além dos filhos.
Mas, por algum motivo, eu começava a enxergar tudo de outra maneira. Acho que isso começou quando vesti aquele vestido ridículo, que mal cobria meu corpo e chamou a atenção de um estranho que... me viu. Um homem que me enxergou quando eu nunca havia sido vista por ninguém.
Então, eu me encontrava presa naquela batalha: queria ser vista porque precisava daquilo como mulher. Ao mesmo tempo, não queria que ninguém me notasse, porque ser notada ainda despertava o medo de que tentassem me pegar à força, mesmo que eu dissesse não.
Era estranho pensar que eu não tinha bloqueios em relação ao sexo em si, mas carregava muitos deles ligados a tudo o que cercou aquele fatídico final de tarde: a bebida, as roupas, os cheiros, o lugar...
Acho que o que me levou a entrar em uma boate, colocar uma roupa curta, beber e beijar um estranho foi justamente o meu diagnóstico. Descobri, da pior forma possível, que tinha menos de um ano para viver tudo o que não vivi durante a adolescência e vida adulta.
E eu não vivi nada porque carregava mil bloqueios por causa do que aconteceu quando ainda era criança. Também porque nunca consegui fazer outra coisa além de perseguir Oliver Bianchi.
Eu me culpei por colocar uma roupa curta? Sim. Eu me culpei por beber uma taça de bebida alcoólica? Sim. Eu me culpei por ter sido leviana e permitido que um homem me tocasse quase publicamente? Sim. Mas, pela primeira vez na vida, liguei o foda-se. E o foda-se não era tão ruim. Talvez, se eu tivesse ligado o foda-se muito antes, o rumo da minha história pudesse ter sido bem diferente.
Minha mãe falava, falava e continuava falando. Eu olhava para ela, mas não compreendia nada, porque meus pensamentos estavam a anos-luz de distância daquela sala.
— E então, se não fosse Oliver, Johnny ainda estaria lá. Isso porque você não me atendeu.
Claro que a culpa precisava ser minha!

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