— Porra! — esbravejei.
Desci do carro e fui imediatamente verificar o estado do outro motorista. Ninguém se machucou. O prejuízo se limitava aos veículos, embora o homem gesticulasse diante da traseira amassada como se eu destruísse uma relíquia histórica.
Eu não tinha disposição para lidar com seguradora, polícia, oficina, orçamento ou qualquer discussão à beira da rua. Além disso, estava com uma pressa absurda.
Perguntei quanto ele queria. O homem me deu um valor claramente acima do necessário, provavelmente esperando que eu negociasse.
Peguei o celular e fiz uma transferência três vezes maior. Ele olhou para a tela, incrédulo.
— Isso cobre o conserto, o transtorno e qualquer outra coisa da qual você pretenda reclamar. Se sobrar, compre outro carro.
Voltei para o meu antes que ele conseguisse responder. O dinheiro resolveria facilmente aquele acidente. O problema era o que me deixou distraído o bastante para causá-lo.
Meu carro simplesmente não ligou. Eu só pretendia estacionar perto do parque, mas parecia que tudo conspirava para me impedir de chegar até a minha família.
Desci do carro e liguei para a minha secretária, pedindo que resolvesse a porra que eu fiz. Em seguida, corri atrás de Jaqueline e dos meus filhos.
Porém, quando percebi que ela abriu a cesta e retirou uma toalha quadriculada, vermelha e branca, daquelas que só víamos em filmes de romance clichê, não consegui avançar mais nenhum passo.
Jaqueline sorria enquanto tentava estender a toalha sobre a grama, mas o vento conspirava contra ela. Zoe ria tanto que segurava a barriga. E Maicon... bem, meu filho sorria e olhava para a mãe como se ela fosse a luz que impedia o mundo de se apagar.
Mordi o lábio, tomado por algo que nunca senti antes. Um sentimento para o qual eu não encontrava um nome.
Quando tentei me mover novamente, percebi que mordi o lábio de maneira automática... porque ele tremia.
— Papai!
Reconheci a voz. Mas não consegui voltar os olhos para a minha própria filha. Continuei olhando para Jaqueline, que parou de sorrir no exato momento em que percebeu a minha presença, como se me encontrar ali fosse a pior coisa do mundo.
Baixei o olhar, incapaz de sustentar o dela. Senti uma mistura de decepção e... novamente aquela coisa sem nome. Não era uma dor forte, mas incomodava. Permanecia ali, apertando alguma parte de mim que eu sequer sabia que existia.
Quando senti os bracinhos envolvendo minhas pernas, sorri e puxei os dois para o colo, segurando um em cada braço.
Então fui invadido por um sentimento que sabia definir perfeitamente: amor. Puro, incondicional, quase doentio.
— O que você trouxe para o piquenique? — Zoe quis saber.
Caminhei em direção ao lugar onde Jaqueline estava, com meus dois filhos agarrados a mim. Assim que parei diante dela, encarei-a.
Zoe falava mil coisas ao mesmo tempo. Se ela me fizesse alguma pergunta, eu não saberia responder, porque não conseguia prestar atenção em absolutamente nada.

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