Cheguei à casa dos meus pais parecendo um zumbi. Dormi por apenas uma hora naquela noite. Ou melhor, quando finalmente consegui dormir, já era dia.
Zoe e Maicon já estavam acordados. Os dois abandonaram o desjejum e correram na minha direção assim que me viram. Ergui um em cada braço enquanto recebia vários beijos molhados pelo rosto.
— Podemos voltar a morar todos juntos agora que você fez as pazes com a mamãe? — Zoe perguntou.
“Não, Zoe. Nunca mais voltaremos a morar todos juntos. E isso é culpa minha.”
Respirei fundo, tentando encontrar uma resposta que não acabasse com a esperança estampada nos olhos dela:
— Eu acho... que talvez... a gente ainda tenha que esperar um pouco.
— Flores — Maicon disse, com um sorriso inocente.
Eis a parte mais difícil. Embora Jack estivesse mudada... tão mudada que decidiu que não tinha mais coração, Zoe e Maicon não tinham culpa de nada.
Eu até entendia que nosso casamento acabou e que Jack me odiava. Mas ela foi embora do restaurante sem se despedir dos filhos e jogou no lixo as flores que, obviamente, eles haviam me ajudado a pintar. Era como se nada tivesse mais importância para ela do que Adriel.
Mesmo assim, talvez eu estivesse sendo injusto. Eu não sabia o que se passava na cabeça de Jack, nem quais eram os motivos para agir daquela forma. Só sabia que precisava proteger Zoe e Maicon da rejeição das rosas. Eles haviam pintado cada uma daquelas pétalas acreditando que fariam a mãe feliz.
Respirei fundo e disse:
— Aconteceu um acidente com aquelas flores. — Arregalei os olhos para dar mais emoção à mentira. — Acreditam que o entregador estava de moto, começou a chover e as flores perderam toda a cor?
Maicon fechou os olhinhos, como se sentisse profundamente a perda. Zoe meneou a cabeça e declarou:
— Que tragédia!
— Uma tragédia horrível — confirmei. — Mas o entregador me ligou e perguntou se, mesmo com as rosas tendo voltado a ficar brancas, eu queria que ele as entregasse.
— E você disse que não? — Zoe quis saber.
— Claro que eu disse que não. Quem gostaria de ganhar flores manchadas, desbotadas e molhadas pela chuva?
— A mamãe. — Maicon ergueu as mãos, como se aquilo fosse óbvio.

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