Ela ficou encarando as palavras “o sentimento seja mútuo”, e seus olhos foram perdendo o brilho lentamente.
Lembrou-se de alguns dias antes, quando estava internada, e Alípio disse que queria ter uma conversa séria com ela.
Ele mencionara que, logo após o casamento, ela costumava gritar durante o sono, pedindo para que alguém não a deixasse. A partir dali, ele começara a interpretá-la mal e a tratá-la com frieza.
O coração humano é assim mesmo: basta a dúvida se instalar para qualquer faísca fazer a desconfiança arder ainda mais. E foi exatamente o que aconteceu, com uma sequência de acontecimentos piorando tudo cada vez mais.
Então, no começo, ele também sentia um encanto por ela, assim como ela por ele?
Como a descrição feita pelo avô se parecia tanto com o que muitos chamariam de “mulher ideal”?
Ela era a imagem da esposa com que ele sonhava?
E mais: o desejo dele de que “o sentimento seja mútuo” era exatamente igual ao dela?
Mesmo assim, Ema afastou a mão dele devagar. Ficou em silêncio por um instante e declarou:
— Sim, seu avô mencionou isso comigo, mas a minha resposta a ele foi que eu não estou interessada. Como você se machucou, talvez ele ainda não tenha tido tempo de te avisar.
Ao dizer isso, o tom de Ema era suave, envolto em calma.
No início, ele queria ter um bom relacionamento com ela, mas o mal-entendido criou raízes em seu peito. Conhecendo o jeito dele e sua personalidade, no meio de circunstâncias tão confusas, não era de se estranhar que tivesse enlouquecido a ponto de querer se livrar das crianças.
Ou, dizendo de outra forma, talvez qualquer outro homem no lugar dele também não suportasse.
Por outro lado, a própria Ema também não suportava aquilo. Fora ela quem sofrera a injustiça e a humilhação; fora ela quem fora arrastada à força para o hospital.
Mesmo que agora soubesse a verdade por trás da frieza de Alípio e que tudo não passara de um enorme mal-entendido.
Ela ainda sentia que não havia caminho de volta para os dois.
As mágoas que sofrera já faziam parte de sua carne e de seu sangue, enraizadas profundamente dentro dela. Ela não seria capaz de perdoar...
A quem deveria culpar? Aos céus, por lhe pregarem uma peça tão cruel? A Alípio, por não ter esclarecido tudo desde o começo? Ou talvez à personalidade explosiva dele, que culminara em toda aquela tragédia?


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