Na manhã seguinte, a rotina recomeçou cedo.
As crianças se arrumaram para a escola em meio ao habitual caos:
Érica implicando com o penteado,
Kleber procurando um lápis que estava no bolso o tempo todo,
Dário lembrando todo mundo do horário como se fosse um pequeno adulto.
Ema conduziu tudo com a atenção de sempre, mas por dentro ainda carregava a conversa da noite anterior.
Givaldo chegou pouco antes de saírem.
Cumprimentou os pequenos, ajudou Kleber a fechar a mochila e, num gesto que teria parecido banal qualquer outro dia, ajeitou a gola do casaco de Ema quando ela já estava na porta.
O toque foi rápido.
Instintivo.
Quase automático.
E, ainda assim, fez o coração dela falhar por um segundo.
Talvez porque estivesse mais sensível.
Talvez porque agora estivesse vendo certas coisas com uma nitidez incômoda.
Nenhum dos dois comentou.
Ema simplesmente pegou a bolsa e saiu com as crianças.
...
No estúdio, o dia começou com uma pilha de pendências.
Hortensia entrou logo cedo trazendo uma planilha atualizada das campanhas suspensas do Trio Docinho, junto com observações sobre quais parceiros estavam sendo compreensivos e quais já começavam a demonstrar impaciência.
— Ema, a marca de roupas infantis topou esperar sem pressionar muito. Já a de brinquedos educativos quer remarcar o quanto antes, e a de enxoval está fingindo compreensão, mas o texto do e-mail deles está com cheiro de ameaça elegante.
Ema passou os olhos pelo material.
— A de enxoval foi a que mais insistiu em bastidores para reels, não foi?
— Foi. E agora estão mandando “mensagens carinhosas” perguntando se os pequenos estão bem.
Hortensia fez aspas no ar com tamanha indignação que quase arrancou um sorriso de Ema.
— Tá. Segura tudo ainda. Se a pressão aumentar, a gente rescinde.
Hortensia assentiu, mas a observou com um olhar mais demorado.
— Você está diferente hoje.
Ema ergueu os olhos do papel.
— Diferente como?
— Menos tensa por fora... e mais confusa por dentro.
Hortensia ficou em silêncio por alguns segundos, o que por si só já era raro.
Depois disse, mais calma do que o habitual:
— Ema... talvez tenha mexido porque você está cansada de viver no modo sobrevivência. E, quando alguém toca na possibilidade de existir alguma coisa além disso, mesmo que de leve, dói.
A frase atravessou Ema sem que ela quisesse.
Porque, no fundo, parecia verdadeira demais.
— Não sei.
— Não precisa saber agora. — respondeu Hortensia. — E, sinceramente? Com o processo do Alípio no meio, eu nem recomendaria tentar saber.
Apesar do peso do assunto, Ema quase riu.
— Finalmente uma opinião totalmente sensata.
— Eu sou sensata. Só sou dramática também.
A conversa foi interrompida por uma mensagem de Helena:
“A equipe técnica quer agendar a segunda visita domiciliar e a escuta do Samuel.”
Ema endireitou a postura na mesma hora.
Era como se o presente sempre desse um jeito de puxá-la de volta do terreno onde quase começava a sentir algo pessoal demais.
E talvez, naquele momento, fosse melhor assim.

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