A juíza olhou diretamente para Ema.
— A senhora se opõe, em tese, a qualquer vínculo futuro entre os menores e o pai biológico?
Ema respirou fundo antes de responder.
Era uma pergunta-chave.
E sabia disso.
— Não, Excelência. Eu me oponho a qualquer aproximação imposta, precipitada ou construída em ambiente de pressão e insegurança.
A juíza assentiu levemente.
— Então o ponto central, do seu lado, não é a existência da figura paterna em si, mas a forma e o contexto da eventual introdução dessa figura na vida das crianças.
— Exatamente.
A magistrada baixou os olhos para as anotações e tornou a perguntar:
— Por que a senhora não procurou o pai biológico ao longo desses anos?
A sala inteira pareceu ficar mais silenciosa.
Ema já tinha ensaiado essa resposta.
Mesmo assim, sentir todos os olhares concentrados nela foi diferente.
— Porque, no contexto em que saí daquela relação, eu não tinha confiança mínima de que eu ou meus filhos estaríamos seguros em contato com ele. Naquele momento, a minha prioridade não era discutir o direito abstrato de um adulto de ser informado. Era garantir proteção concreta a três crianças muito pequenas.
A juíza não demonstrou reação. Apenas continuou:
— A senhora considera que ainda hoje os menores correm risco em contato com ele?
Ema pensou por um segundo antes de responder.
Precisava ser precisa.
— Eu considero que qualquer aproximação neste momento, sem avaliação adequada e sem contenção clara, representa risco de instabilidade emocional e de quebra de segurança. E também considero preocupante a forma como ele tem tentado se aproximar de mim e do entorno das crianças.
A juíza tomou nota e então perguntou:
— A senhora acredita que, com acompanhamento técnico e tempo, poderia existir algum modelo seguro de construção progressiva de vínculo?
Ema sentiu o peso da pergunta.
Era ali que muitas mães, por desespero, diziam “nunca”.
Ela mesma, no fundo do peito, queria dizer exatamente isso.
Mas sabia que o “nunca” absoluto podia soar como rigidez vingativa.
— Eu acredito que qualquer coisa envolvendo meus filhos precisa ser construída a partir do interesse deles, e não da urgência de um adulto. Se, um dia, técnicos independentes e o próprio juízo entenderem que existe condição real de segurança, adaptação e respeito ao tempo deles, isso pode ser analisado. Mas não agora, e não dessa forma.
Helena baixou os olhos por um instante.
Givaldo, ao fundo, também permaneceu completamente imóvel.
A resposta tinha sido boa.
Muito boa.
— Porque durante muito tempo eu procurei uma mulher que havia desaparecido completamente e porque, por falhas que reconheço hoje, não tive acesso correto ao que deveria ter sido apurado. Quando finalmente consegui remontar os fatos com segurança, já me deparei com quatro anos perdidos.
A formulação era boa.
Muito boa.
Boa o bastante para irritar Ema de novo.
Porque havia verdade parcial ali.
E verdades parciais, nas mãos certas, podem ser quase mais perigosas do que mentiras completas.
A juíza voltou a anotar.
— O senhor reconhece ter feito abordagens inadequadas à mãe?
Desta vez, Alípio demorou um pouco mais.
— Reconheço que, ao reencontrá-la, perdi o controle em alguns momentos.
A resposta fez algo ferver no estômago de Ema.
“Perdi o controle.”
Como se o problema fosse uma abstração emocional e não o corpo dela empurrado, segurado e invadido.
Mas ela permaneceu em silêncio.
Porque agora sabia exatamente onde precisava vencer: no controle.

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