Na manhã seguinte, Helena enviou uma proposta de plano preventivo de comunicação.
Não era um comunicado para divulgar de imediato, mas um rascunho para eventual necessidade.
Ema abriu o documento já com má vontade.
O texto era sóbrio, breve e estratégico:
“Questões familiares e relacionadas a menores serão tratadas exclusivamente na esfera privada e legal, com máxima prioridade ao bem-estar das crianças. Quaisquer informações distorcidas ou tentativas de exposição indevida serão respondidas pelos canais jurídicos adequados.”
Ela leu duas vezes.
O texto era bom.
Precisamente por isso a incomodava.
Porque significava que a hipótese de precisar usá-lo era real.
Hortensia entrou com uma pilha de provas fotográficas para aprovação e encontrou Ema olhando para a tela com expressão travada.
— O que foi dessa vez?
Ema girou o notebook na direção dela.
Hortensia leu e fez uma careta.
— Tá. Odeio isso. Mas ficou bem escrito.
— Exatamente. — respondeu Ema. — É por isso que eu odeio ainda mais.
Hortensia largou os materiais sobre a mesa e se sentou.
— Você sabe o que mais me irrita?
Ema ergueu os olhos.
— O quê?
— Que quem quer paz é sempre obrigado a virar estrategista. Enquanto o maluco só precisa continuar sendo maluco.
A frase arrancou dela uma risada curta, involuntária.
— Você anda estranhamente sábia.
— Eu assisto muita novela ruim. Dá repertório.
...
Mais tarde, Ema recebeu retorno da clínica psicológica com o relatório preliminar de Elisa.
O texto era técnico, mas sólido: vínculo materno consolidado, ambiente estável, percepção de ameaça concreta, ausência de traços de desorganização ou manipulação da narrativa infantil.
Ela encaminhou o documento para Helena.
A advogada respondeu rapidamente:
“Excelente. Isso nos ajuda muito.”
Ema ficou olhando para a palavra “excelente” na tela.
Tão estranho ver algo íntimo e doloroso ser transformado em peça útil.
Mas, se era assim que o jogo precisava ser jogado, então jogaria.
...
Na hora do almoço, Henrique mandou outra mensagem:
“Hoje sem bomba, por enquanto.”
Ema respondeu:
— Ele mencionou nome?
— Não diretamente. Mas deixou claro que voltaria com documentos formais se necessário.
Ema manteve o rosto o mais neutro possível.
— Vocês repassaram alguma informação?
A coordenadora balançou a cabeça imediatamente.
— Absolutamente nada. Seguimos exatamente as orientações de segurança que a senhora deixou.
Ema soltou o ar devagar.
— Obrigada. E, por favor, me avisem de qualquer nova tentativa, mesmo que pareça pequena.
— Claro.
Ao sair da sala, encontrou as crianças esperando por ela com mochilas e carinhas impacientes.
Érica reclamou na mesma hora:
— Mamãe, você demorou.
Ema se abaixou e beijou o topo da cabeça dela.
— Desculpa. Agora estou aqui.
Mas, por dentro, a raiva já vinha tomando o lugar de tudo.
Ele estava, passo a passo, aproximando-se do espaço deles.
E cada tentativa fazia ficar ainda mais claro que ela tinha razão em não esperar mais nada de bom vindo dele.

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