Na manhã seguinte, Givaldo apareceu na casa dela antes mesmo de as crianças terminarem o café.
Tinha o rosto fechado e o celular na mão.
Assim que os pequenos saíram com as senhoras e o motorista, ele foi direto ao assunto:
— Você devia ter me ligado na hora.
Ema, que ainda segurava a xícara de chá, respondeu com calma cansada:
— Era madrugada. Eu registrei tudo e te encaminhei imediatamente depois.
— Não era só para registrar. Era para me avisar.
Ela ergueu os olhos para ele.
— E o que você faria? Viria aqui às três da manhã bater na porta?
O maxilar dele travou.
— Se fosse preciso, sim.
A resposta saiu rápida demais, fazendo os dois caírem em um breve silêncio.
Givaldo passou a mão pelo rosto e recuou um pouco no tom:
— Desculpa. Eu não estou tentando descarregar em você. Só... isso mostra que ele não vai respeitar nem o mínimo.
Ema apoiou a xícara na mesa.
— Eu já sabia disso.
— Saber não é a mesma coisa que lidar com isso às três da manhã, sozinha.
A frase tinha razão demais para ser ignorada.
Ela não discutiu.
Givaldo então mostrou a tela do celular.
— Helena quer protocolar ainda hoje um aditamento à cautelar com base na quebra da notificação.
Ema assentiu.
— Faz.
Ele ficou observando o rosto dela por alguns segundos.
— Você conseguiu dormir depois?
Ela sorriu sem humor.
— Um pouco.
Ele não insistiu.
...
Mais tarde, já no estúdio, Helena fez uma chamada de vídeo com Ema e Givaldo.
A advogada foi firme:
— Agora ficou melhor para nós. Ele foi formalmente notificado e, mesmo assim, insistiu em contato direto. Isso demonstra descumprimento consciente. Vou reforçar o pedido de limitação e acrescentar a narrativa de perturbação em horário de descanso, com potencial de abalo psicológico.
Ema ouviu em silêncio.
Quando a ligação terminou, Hortensia, que tinha acompanhado parte da conversa da porta, entrou e largou um pacote de biscoitos sobre a mesa.
— Não tenho solução jurídica, então trouxe açúcar.
Ema soltou um suspiro.
— Você é uma visionária.
Hortensia se sentou de frente para ela.
— Sério agora. Como você está?
“Seu ex-patrão acabou de comprar briga também em outra frente.”
Ela respondeu:
“Que frente?”
Henrique demorou menos de um minuto:
“Mandou alguém tentar acessar registros escolares por fora. Não conseguiu.”
Ema gelou.
“Tem certeza?”
“Tenho. E teu nome já começou a circular em algumas conversas erradas.”
Ela apertou o celular com força.
“Que conversas?”
Henrique respondeu:
“Que existe ‘uma mulher escondendo os filhos de um homem poderoso’.”
O sangue dela ferveu.
A narrativa começava a ser empurrada para o lado mais sujo possível.
Não mais o da proteção.
Mas o da ocultação maliciosa.
Era exatamente o tipo de distorção que Helena havia previsto.
Ema digitou de imediato para Givaldo:
“Precisamos conversar hoje. Agora.”

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