Ao voltarem para o estúdio, Givaldo não foi embora imediatamente.
Chamou Hortensia, os assistentes mais próximos e duas pessoas da equipe administrativa para uma reunião curta e objetiva.
— A partir de hoje, qualquer solicitação de informação envolvendo o Trio Docinho, a Ema ou a rotina das crianças precisa passar por mim ou pela diretoria jurídica. Sem exceções.
O tom não admitia discussão.
Hortensia assentiu na hora:
— Pode deixar.
Givaldo então se voltou para um dos assistentes:
— Também quero controle de visitantes mais rigoroso. Nome, documento, horário e motivo.
Depois, virou-se para Ema:
— E você não sai mais sozinha sem avisar.
Ela segurou a vontade de retrucar.
Não porque concordasse com tudo, mas porque, naquele momento, sabia que a discussão não levaria a lugar nenhum.
Assim que ele saiu, Hortensia se aproximou dela em passos curtos:
— Estou com a sensação de que entramos numa série jurídica de streaming.
Ema soltou um suspiro.
— Eu preferia um documentário sobre plantas.
— Eu preferia qualquer coisa sem milionário obsessivo. — respondeu Hortensia.
As duas quase sorriram.
Quase.
...
Naquele mesmo dia, perto do fim da tarde, a escola das crianças ligou.
O coração de Ema disparou na hora.
Atendeu imediatamente.
Mas, desta vez, era apenas a coordenadora pedagógica confirmando um novo procedimento de segurança.
— Sra. Ema, estamos atualizando o cadastro de retirada e emergência. A senhora quer manter apenas os nomes já existentes ou vai acrescentar alguém?
Ema respondeu sem hesitar:
— Mantenham apenas os nomes já registrados e não aceitem nenhuma alteração por telefone. Só pessoalmente e com confirmação por escrito.
— Perfeitamente.
Depois de desligar, Ema permaneceu olhando para o celular.
Aquelas medidas eram necessárias. Ela sabia.
Ainda assim, cada uma delas parecia empurrá-la de volta à sensação de viver em alerta constante.
...
— Ele está testando limite.
Ema cruzou os braços com força, como se tentasse conter o próprio tremor.
— Então agora ele já está observando as crianças de perto.
Givaldo respondeu num tom baixo e perigoso:
— Não. Agora ele acabou de cometer um erro muito maior.
Ele ligou na frente dela para o advogado, pediu preservação de prova e falou em tom seco sobre “mudança imediata da abordagem”.
Quando desligou, voltou-se para Ema:
— A partir de hoje isso deixa de ser apenas defesa. A gente vai começar a responder.
Ema o encarou.
— Como?
— Primeiro, notificação formal. Segundo, pedido de medida preventiva se necessário. E terceiro...
Ele fez uma pausa.
— Se ele quer jogar com pressão, vamos fazer com que cada movimento dele passe a custar caro.
Ela ficou em silêncio por um momento.
Depois assentiu.
Se até ali ainda existia alguma parte dela esperando que Alípio recuasse sozinho, ela tinha acabado de morrer de vez.

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