Na Agência Ponto Alto.
Apenas quando Zenobia teve certeza absoluta de que Alípio havia partido, ela tirou o celular reserva de dentro da camisa.
O hábito de usar a blusa por dentro da calça salvara a situação, pois se o aparelho tivesse caído no chão e sido pego por aquele lunático, o disfarce estaria arruinado.
Recostando-se em sua cadeira giratória e soltando um longo suspiro, ela reviveu mentalmente o encontro com Ema no banheiro do Shopping Estrela do Sul.
A cena do momento em que Ema entrou no banheiro reproduziu-se em sua mente com clareza.
Logo após Ema se trancar na cabine, Zenobia passou-lhe rapidamente uma jaqueta corta-vento longa com capuz, óculos escuros, uma máscara e um boné de aba curva.
Quando Ema terminou de se vestir e escondeu os cabelos dentro do boné, a amiga entregou-lhe um par de sapatos retirado de sua mochila.
— Zenobia, você esqueceu de trazer uma troca de roupa pra você? — Escreveu Ema na tela do celular ao notar a mochila vazia, após concluir seu disfarce.
— Eu entrei usando apenas este vestido sem mangas, então a camisa que acabei de colocar já é o suficiente; agora guarde as suas coisas na mochila e jogue a sacola de papel na lixeira. — Respondeu Zenobia, também digitando.
Lendo as instruções, Ema agiu rapidamente, enfiou a própria bolsa dentro da mochila e a colocou nas costas.
— Vamos, Zenobia. — Sussurrou Ema, segurando a mão da amiga.
— Como sua amiga, preciso perguntar mais uma vez: você tem total certeza de que pensou bem sobre isso e já tomou a sua decisão? — Sussurrou Zenobia ao pé do ouvido de Ema, puxando-a de volta instantes antes de cruzarem a porta da cabine.
Ema percebeu o olhar da amiga direcionado à sua barriga e, instintivamente, acariciou o próprio ventre.
Apesar das lágrimas que brilhavam em seus olhos, sua postura exalava uma determinação inabalável.
— Eu segui o seu conselho à risca e entrei no shopping usando boné, máscara e óculos, e com toda aquela multidão, será quase impossível para o Alípio me identificar nas câmeras. — Comentou Zenobia enquanto caminhavam.
— Isso me deixa muito mais aliviada, porque se ele descobrir pelas gravações que foi você quem me ajudou a fugir, ele não te deixará em paz. — Respondeu Ema.
O alívio genuíno só tomou conta de Ema quando ela finalmente se acomodou no banco do carro.
— Não tire o disfarce ainda, pois Samuel está nos aguardando na próxima rua, mas fique tranquila, porque todos os veículos de hoje foram emprestados através de contatos muito discretos. — Avisou Zenobia ao dar a partida no motor.
— Obrigada por tudo, Zenobia... — Murmurou Ema com a voz trêmula, recostando-se exausta no banco traseiro e lutando contra a vontade de chorar.
Percebendo o peso emocional da amiga, Zenobia preferiu manter-se em silêncio enquanto dirigia.
Embora tivessem escapado, aquilo parecia o início de um exílio, pois enquanto Alípio não desistisse das buscas, Ema viveria como uma fugitiva temendo a própria sombra.

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