POV: ROCCO BLACKWOOD
A porta da antessala finalmente rangeu, e a equipe da Lacerda Enterprise desfilou para fora. Eles tinham aquela cara de quem levou um soco no estômago, mas, assim que bateram o olho na gente, forçaram um sorriso de deboche que não enganaria nem uma criança.
O líder deles, o Sérgio Lacerda, era a personificação da mediocridade: um sujeito redondo, sempre suado, que ajeitava a pasta sob o braço como se estivesse escondendo um tesouro. A Lacerda era uma piada de mau gosto que deu certo. Meu avô, num desses raros momentos de bobeira em que a idade pesou, resolveu validar a tecnologia de IA deles anos atrás. O resultado? Enriqueceram vendendo arquitetura de prateleira, algoritmos baratos que entregam prédios sem alma para quem não sabe a diferença entre um pilar e um poste. O problema nem era a tecnologia, era a falta de talento; parecia que nenhum deles sabia segurar um compasso sem se furar.
— Ah, vejam só... os vendedores de algoritmos estão sendo devolvidos para a natureza — comentei, sem descruzar os braços, enquanto o gordinho passava por nós exalando um perfume barato misturado com suor de ansiedade.
— Não ache que a vida é fácil assim, Blackwood — Lacerda murmurou, parando por um segundo. — Nós não fomos os escolhidos hoje, mas o jogo é longo.
Soltei uma risada curta, o tipo de som que eu guardava para piadas realmente ruins.
— O seu problema, Lacerda, é achar que está j**ando. A Blackwood não j**a; a gente domina. Da próxima vez, tenta contratar engenheiros que entendam de cálculos e revestimento, não só de código.
Ele saiu bufando. Nathan e Diego, que estavam logo atrás de mim, trocaram olhares enquanto seguravam o riso.
— Ele está confiante demais — Nathan sussurrou, passando a mão nos cachos loiros. — Ouvi dizer que eles estão participando do nosso concurso Blackwood Horizon.
— Que tentem — respondi, sem dar importância. — De sem alma, já basta os projetos dele. Mas agora, foco. Eu não vim aqui para perder tempo com amadores enquanto o Prefeito decide o nosso futuro.
— Eu serei o escolhido — Nathan disparou, estufando o peito. — O Prefeito amou a minha proposta da praça.
— Se ele tiver um pingo de bom gosto, escolhe o meu projeto — rebati, olhando para o teto da prefeitura que precisava urgentemente de uma reforma. — O seu parece uma decoração de bolo de casamento e aquela estátua, nem tenho comentários suficientes.
— Vamos apostar, Rocco? — Nathan se inclinou, o olhar castanho desafiador. — Se o Prefeito escolher o seu projeto moderninho, eu pago o jantar e viro seu estagiário por um mês. Compro até seu café.
— Parem com isso e ajam como adultos, por favor — Diego resmungou, sem desviar os olhos azuis da tela.
— E se ele escolher o seu erro em forma de praça? — perguntei, ignorando o sermão do "baixinho".
— Aí você paga a conta da noite — Diego interveio, finalmente guardando o celular e cruzando os braços. — E vira o nosso garçom oficial. Sem sobrenome Blackwood para te salvar, sem arrogância. Só você, uma bandeja e um pano no ombro, servindo cada drink e aguentando nossos caprichos.
— Não era para sermos maduros — questionei a ele.
— Mas é que se o Nathan ganhar, todos nós ganhamos.
Encarei o traidor de olhos azuis por um segundo. O pensamento de ver a cara de derrota do Nathan era tentador demais.
— Fechado. Porque eu não perco para praças com estátuas douradas.
A secretária finalmente abriu a porta. Sentei-me na cadeira de couro da prefeitura e comecei a bater minha caneta Montblanc na mesa, acompanhando o ritmo da minha paciência que estava acabando. Porto Alegre estava um forno, e o ar-condicionado daquela sala não dava conta de nada.
O Prefeito pigarreou, secando a testa com um lenço encardido.
— Ora, senhores, é um prazer receber a Blackwood. Hoje o dia está uma loucura, meu sobrinho se casa em algumas horas e eu não posso me atrasar, mas fiz questão de recebê-los. Temos uma verba para lançar e eu precisava decidir qual dos dois projetos da firma nós vamos usar antes de eu sair para a cerimônia.
— Certo, Prefeito... Mas, sinceramente? Qualquer firma pequena pegaria esse projetinho. Não precisava ser a Blackwood — disparei, direto ao ponto.
Nathan e Diego reviraram os olhos para mim, e o Prefeito apenas coçou a garganta, sem jeito.
— Mas, já que estamos aqui, olhe para este telão.
Abri o meu projeto: uma obra-prima de concreto que deixava a luz passar, linhas modernas que respeitavam a margem do rio e que gerava a própria energia. Seria um parquinho para as crianças e um museu da nossa cidade ao céu aberto. Seria lindo, o ápice da engenharia.
Em seguida, Nathan levantou-se e mostrou o dele: uma praça circular comum, com uma estátua dele dourada de cinco metros bem no centro, alguns brinquedos e grama sintética. Um monumento cafona.
O Prefeito levantou-se com os olhos brilhando, apontando para o telão.
— É isso! Magnitude! Ouro! Uma estátua que as pessoas vejam de longe e saibam quem construiu! O projeto oficial será o seu, Nathan Beaumont! Parabéns. Agora, com licença, preciso correr para o casamento.
O mundo pareceu parar. Senti o sangue subir para o rosto enquanto Nathan e Diego comemoravam em silêncio, vitoriosos.
— O senhor só pode estar brincando, Prefeito... — murmurei, sem acreditar. — O senhor trocou tecnologia de ponta por... uma estátua de bronze? Isso é um crime contra o bom gosto!
O Prefeito apenas deu um tapinha condescendente no meu ombro um gesto que quase me fez perder o réu primário e saiu da sala apressado. Nathan, por outro lado, explodiu em uma gargalhada que ecoou pelas paredes de mármore da prefeitura.
— Perdeu, engomadinho! — Diego também tripudiou, ajeitando os óculos com um prazer sádico. — O Gre-Nal é hoje, a verba saiu e a nossa comemoração começa em duas horas. Aonde vamos? Espero que seja um lugar com bebidas bem caras para o nosso garçom oficial servir com elegância.
Alguns minutos depois enquanto saíamos do prédio, peguei meu celular e senti o aparelho vibrar. O idiota do Diego já tinha espalhado no grupo da empresa que a Blackwood levou a licitação e convidou todos do setor de projetos para assistir ao jogo, beber e comer por minha conta.
Entre as notificações, vi uma do Ravi, meu irmão caçula: "Vi no grupo que a firma levou a licitação. Onde vai ser a resenha? Quero ir!".



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