No entanto, por mais exímia que fosse sua técnica, o avô Silva continuava a desgostar dela, motivo pelo qual ela nunca mais preparou chá depois daquilo.
Já faziam três anos; ela não sabia se havia perdido a prática e só esperava não passar vergonha hoje.
Ouvindo-a mencionar a lavagem das mãos e a queima de incenso, o Sr. Horácio não pôde deixar de observá-la um pouco mais. Apesar da pouca idade, ela parecia entender os verdadeiros caminhos daquela arte.
Ele lançou um olhar à funcionária ao lado, que captou a mensagem e se retirou do ambiente. Minutos depois, duas mulheres com trajes tradicionais entraram na sala, trazendo consigo um incensário e uma bacia com água limpa.
Após purificar as mãos e acender o incenso, Sabrina pegou a água fervente e escaldou o bule. Em seguida, recolheu do recipiente uma quantidade adequada de folhas e as depositou no bule. O chá era um blend especial da mais alta qualidade.
Ela despejou um pouco de água quente no bule e o tampou. Por ser de vidro transparente, era possível ver as folhas afundando graciosamente, absorvendo a umidade e se desdobrando, revelando a cor natural de seus brotos frescos.
A primeira etapa era a lavagem do chá. Ela descartou aquela água levemente turva e adicionou uma nova leva para realizar a segunda infusão.
Aguardar o ponto da água, infundir, derramar... cada etapa do processo era conduzida com método e perfeição.
Observando os movimentos hábeis e a concentração dela ao preparar a bebida, o olhar do Sr. Horácio transbordou aprovação.
Aquela também era a primeira vez que Antônio a via preparando chá. Sua cabeça levemente inclinada exibia uma faixa de nuca lisa e clara, branca como porcelana e de textura impecável. Sua expressão focada sugeria estar realizando um ritual sagrado.
Seu rosto era miúdo, mal ocupando o tamanho da palma dele. As linhas de seu perfil eram suaves e refinadas, e uma mecha rebelde de cabelo grudada em sua bochecha adicionava-lhe uma aura de vivacidade.
Cinco minutos depois, o vapor subia entrelaçado ao aroma do chá, assemelhando-se a nuvens flutuantes. O ar na sala elegante movia-se, sendo tomado por uma fragrância delicada.
Fazia tanto tempo que não praticava, que nem sabia como ficaria o sabor.
Ela desvirou duas pequenas xícaras de argila vermelha, serviu-as e as deslizou até eles:
— Acima de sessenta graus, o chá queima a boca; abaixo de quarenta, o aroma perde força e o sabor se torna adstringente. Provem e digam o que acham.
O Sr. Horácio ergueu a xícara, aspirando o perfume rente ao nariz. O aroma sereno possuía um frescor revigorante. Mesmo antes de degustar, o simples cheiro deixava claro que as habilidades da garota eram notáveis.
Sabrina observava os dois provarem a bebida com ansiedade. Sentia-se ainda mais apreensiva do que quando participara do torneio de cerimônia do chá e aguardava o veredito dos juízes.

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