Wilson voltou-se para Talita e disse:
— A Vânia já não é mais criança. A Clarice acabou de voltar, ela deveria ser um pouco mais compreensiva e deixar de ser tão mimada.
Talita assentiu com a cabeça e olhou para Clarice com uma expressão maternal.
Talita disse afavelmente:
— Clarice, você tem um coração grande. Não leve a mal as atitudes da sua irmã.
Clarice não disse uma palavra. Continuou observando tudo com um semblante impassível e um sorriso levemente sarcástico nos lábios.
Talita saiu atrás de Vânia, deixando apenas pai e filha sozinhos na sala de estar.
Wilson tentou persuadi-la:
— Clarice, de qualquer forma, o papai está muito feliz que você tenha voltado. Meu aniversário é daqui a alguns dias. Fique para a comemoração antes de ir. Estou velho, e a cada aniversário que celebro, é um a menos que me resta.
Clarice olhou para ele, sem concordar nem recusar, mantendo uma expressão indiferente.
Clarice respondeu:
— Eu posso ficar na capital por alguns dias. Vamos resolver a questão da herança das ações nesse período!
Ela queria ver se Wilson estava, de fato, disposto a transferir as ações tão prontamente como havia afirmado.
Wilson argumentou:
— É claro. No entanto, sua mãe já faleceu há muitos anos, e se eu não tivesse segurado as pontas, as ações não teriam sido preservadas até hoje. Para assumir a herança, será necessário convocar uma assembleia geral de acionistas. Se houver aprovação unânime, não haverá problema algum.
Clarice ergueu o olhar e o fitou de soslaio.
— Tudo bem, eu posso esperar.
Ela sabia muito bem que aquilo não passava de uma desculpa; afinal, conseguir aquelas ações nunca seria tão simples assim.
Clarice abriu um sorriso gélido.
— Ah, a propósito, há mais um detalhe que eu quero esclarecer. Como minha mãe possuía ações da empresa, logicamente haveria dividendos anuais. Mas, desde que ela faleceu, nem um único centavo desses lucros chegou até nós. Eu pergunto: com quem está o dinheiro da minha mãe, e nas mãos de quem está o contrato das ações?
Wilson soltou um longo suspiro.
Clarice apontou casualmente para uma funcionária, exatamente a mesma que, mais cedo, a havia confundido com Oceana.
Wilson observou a filha indomável e teimosa, sentindo o afeto em seu olhar dissipar-se pouco a pouco.
Clarice, acompanhada da empregada, foi direto para o seu antigo quarto. Vânia ainda choramingava com Talita quando a porta foi empurrada com força.
Mãe e filha levaram um grande susto.
Ao ver que era ela, Vânia imediatamente se levantou e começou a gritar:
— Clarice, você ficou louca? O que está fazendo no meu quarto? Saia daqui agora!
Talita também demonstrou reprovação.
— Clarice, você está procurando um quarto para ficar? Eu levo você até um.
Ela fez menção de guiá-la para fora.
Clarice, no entanto, começou a andar pelo ambiente. Aquele fora o seu quarto por mais de dez anos, e bastou Vânia chegar para que ele lhe fosse tomado.

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