Fátima caminhou até um lado da sala e sentou-se.
— Você fez um ótimo trabalho.
O diretor virou-se e tomou assento.
— Qual é exatamente a sua desavença com aquele menino? Por que você insiste em esconder o paradeiro dele? De que família ele realmente é?
Fátima serviu-se de uma xícara de chá.
— Eu fiz isso para o seu próprio bem. Se você contasse a verdade e dissesse que a criança morreu naquele incêndio, isso seria considerado pura negligência sua. Só com base nisso, aquele homem que acabou de sair daqui seria capaz de colocá-lo atrás das grades. Meu querido pai, no seu atual estado de saúde, quanto tempo mais você acha que aguentaria?
Com aquelas palavras, os ombros do velho diretor curvaram-se em sinal de derrota.
— Vá embora. Não volte nunca mais. Tudo o que eu lhe devia durante todos esses anos, já está mais do que pago.
A mão de Fátima tremeu ligeiramente ao segurar a xícara, mas ela forçou um sorriso e bebeu todo o chá de um só gole.
Fátima partiu, e a sala foi novamente tomada por um silêncio absoluto.
O velho diretor levantou-se e caminhou lentamente até a janela. Fechou os olhos, e as cenas do passado começaram a invadir sua mente mais uma vez.
Tetos desabando, as chamas devorando tudo ao redor.
— Menino, fuja depressa! Não olhe para trás e não ouse voltar. Aqui estão a lembrança e o endereço daquele casal. Só encontrando-os você terá a chance de viver.
— Senhor diretor, venha comigo!
O rosto do garoto estava coberto de fuligem, e seus olhos, outrora límpidos e escuros, transbordavam lágrimas desesperadas.
— Vá logo. Lembre-se do que eu disse. Não olhe para trás.
Ele arrancou o pingente de ouro do pescoço do menino e, com toda a força que lhe restava, empurrou-o para fora.
Um estrondo ensurdecedor ecoou, seguido de uma dor dilacerante que retornou à sua memória.
O diretor arregalou os olhos num sobressalto, levando a mão à perna esquerda, que há muito tempo havia perdido a capacidade de sentir qualquer dor.
Cemitério da Cidade H.
Ajoelhada diante do túmulo, Clarice desabafava incessantemente sobre tudo o que havia acontecido naqueles últimos tempos.
Erasmo permanecia em silêncio ao seu lado, ouvindo atentamente cada palavra.
Contudo, no instante em que Clarice declarou que nunca mais teria esperanças de viver um romance, os ouvidos dele se fecharam para qualquer outra coisa.
Ele baixou o olhar para a mulher ajoelhada diante da lápide, seus belos olhos estreitando-se de forma enigmática.
Sem esperanças no amor? Será que, por causa de um canalha qualquer, ela estava realmente disposta a fechar seu coração para sempre?
Os dois permaneceram no cemitério por cerca de uma hora antes de irem embora. A viagem para a capital seria no dia seguinte, e ainda havia algumas pendências para resolver.
Ela aproveitou para passar na Amanhecer Entretenimento, a fim de se informar com Evelise sobre o andamento das produções.
— Tudo está avançando de forma excelente. No entanto, alguns atores estão expressando descontentamento com a necessidade de refazerem seus testes.
Evelise apontou detalhadamente o nome de cada um desses atores, enquanto Clarice analisava atentamente a lista em suas mãos.

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