Jorge respirou fundo, como se estivesse finalmente reunindo toda a coragem que lhe restava na vida, e perguntou em voz baixa:
— Para você... eu sou a pessoa certa?
Sua voz soava leve e despreocupada, mas seus olhos, que estavam fixos nela, transbordavam de um nervosismo e apreensão incontroláveis.
Laís observou-o em silêncio, deixando o olhar passear pelos traços do seu rosto antes de assentir com extrema seriedade:
— Sim.
Apenas uma palavra, simples, mas que ressoou com absoluta convicção.
Jorge ficou atônito por um instante, e de imediato, um sorriso tão radiante quanto as águas da primavera explodiu em seus olhos.
Ele captara com agudeza a profundidade da resposta dela:
Ela não dissera "acho que sim", mas um assertivo e incontestável "sim".
Para ele, essa aprovação valia infinitamente mais do que milhares de palavras doces de amor.
O sorriso que despontou em seus lábios foi tão contagiante que até a atmosfera ao redor pareceu aquecer-se.
Laís, ao presenciar aquela expressão, sentiu um calor aconchegante atingir o canto mais macio de seu coração, e também não conseguiu evitar que os próprios olhos se dobrassem num sorriso terno.
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O memorial foi agendado para o sábado, tendo como local a propriedade particular mais requintada dos arredores de Marbella.
Felipe Vasconcelos de fato cumpriu a sua palavra; não só custeou pessoalmente todas as despesas, como também supervisionou cada pequeno detalhe.
O local não ostentava o tradicional luto em tons de preto e branco, mas encontrava-se inteiramente revestido com Girassóis e Lírio-do-vale, as flores que Laís mais estimava em vida.
O ar estava impregnado com uma fragrância floral suave e era embalado pelas notas melancólicas de um violoncelo, conferindo ao recinto um ar de solenidade e respeito, entrelaçado a uma elegância ímpar.
Felipe envergava um impecável terno preto feito sob medida, ostentando um delicado cravo branco na lapela.
Nos últimos dias, a recordação constante de todas as demonstrações de carinho que ela tivera com ele, o levava a um ciclo de insegurança e instabilidade mental cada vez mais incontrolável.
Alguns dias atrás, ele comunicara à família suas resoluções em relação à realização do memorial para Laís, bem como sobre a destinação da sua "herança".
Tal como previa, essa determinação defrontou-se com o repúdio imediato e generalizado de todos.
Patrícia Lacerda, em particular, insultara-o sem qualquer reserva, acusando-o de total burrice e idiotice imensurável.
Ele próprio hesitara, ciente da severa carência financeira pela qual o Grupo Vasconcelos passava naquele exato momento.
Porém, ao refletir que se tratava de uma poupança destinada por Laís a Aline, sua consciência gritava que desviar tais fundos o condenaria a viver atormentado pelo resto de seus dias.
Por esse motivo, após ponderar cuidadosamente, ele optou por ocultar tudo dos familiares e conduzir aquele evento particular às escondidas.
Acreditava convictamente que convidar os amigos, colegas de ofício e parentes de Laís para prestar-lhe as últimas homenagens, seria a única maneira de selar, ainda que tardiamente, a dignidade do seu percurso juntos como casal, assegurando o merecido descanso a ela.
E, de forma a contornar qualquer possibilidade de retaliação, abstivera-se de avisar os familiares, sequer lhes revelando o paradeiro em que o ato aconteceria.

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