ELISA RIVER.
O ar na cozinha parecia sufocante. Mel ainda choramingava baixinho no meu colo, como se sentisse toda a tensão que pesava sobre mim. Eu a embalava devagar, tentando me acalmar, mas por dentro tudo fervia. A decisão estava tomada. Eu não ia recuar. Não após ouvir aquelas palavras dele.
Senhora Abigail me olhava cheia de súplica. Ela deu um passo à frente, as mãos trêmulas estendidas na minha direção.
— Elisa, por favor, pense melhor, querida. Não seja precipitada. Victor está passando por um momento delicado e não sabe o que está fazendo. Por favor, não leve a sério o que ele diz. É da boca para fora.
Suspirei fundo, sentindo o peso do cansaço e uma dor nos ombros.
— Senhora Abigail, sei que quer ajudar, mas eu não posso permanecer aqui após ser mandada embora. Ele não me quer aqui. Não suporta a presença de uma criança na sua casa. Sei que Victor está sem as memórias, mas isso não é justificativa para ser um babaca, grosseiro e insensível.
Ela abriu a boca para responder, mas as palavras pareceram morrer na garganta. Seus olhos se encheram de lágrimas. Ela olhou para Ceci, depois para mim, como se procurasse uma saída que não existia.
Foi Ceci quem quebrou o silêncio pesado que surgiu.
— Você está certa, amiga. Meu tio foi rude e cruel. Ele foi horrível mesmo. Mas amiga… para onde você vai com uma criança de meses de vida e grávida de gêmeos? Eli, você não conhece ninguém aqui. Por favor, vamos pensar numa solução antes de sair sem rumo. Pense nos meus afilhados e na Mel. Não faça nada no calor do momento, para não se arrepender. Você sempre me diz isso.
Deixei os ombros caírem. Meu olhar se perdeu entre as duas. A raiva ainda queimava, mas o medo também estava ali, apertando meu peito. Para onde eu iria mesmo? Sozinha, com Mel no colo, grávida, sem ninguém? A realidade me acertou como um tapa.
Então, uma voz suave veio do canto da cozinha. Marta, a cozinheira, que até então só observava tudo em silêncio, limpou as mãos no avental e se aproximou devagar.
— Desculpe-me meter na conversa, mas… por que você não fica na edícula, Elisa? No seu antigo quarto. Lá você não terá que encontrar o senhor Victor e não estará sozinha com Melissa, por Deus sabe aonde.
Senhora Abigail arregalou os olhos, como se tivesse encontrado uma salvação.
— Excelente ideia, Marta! O que acha, Elisa? — perguntou, cheia de esperança.
Ceci se inclinou na minha direção, os olhos brilhando de esperança.
— Amiga, na edícula você ficará confortável e protegida com a Mel. Pense nos seus filhos. Essa é uma ótima solução.
Suspirei novamente, mais longo dessa vez. Olhei para Mel, que agora brincava com a gola da minha blusa, alheia a tudo. Meu coração doía. Eu queria protegê-la. Proteger os gêmeos que cresciam dentro de mim. Ficar na edícula… não era ideal, mas era melhor do que sair sem destino.
Eu ainda arriscava encontrar Victor, mas seria bem raro isso acontecer. Ele não vai ficar andando pela casa, no estado em que está hoje. Então pode ser uma boa ideia ficar na edícula. Assim, eu também teria notícia dele. Pois, mesmo não reconhecendo esse homem que está na sala, eu ainda amo meu Victor e me preocupo com ele.
— Se você quiser, também pode ficar hospedada na minha casa, Elisa — disse Abigail, a voz suave e carinhosa. — Vou adorar ter você e meus netos comigo. — Disse com animação. Eu gostava muito da minha sogra e não teria problema em ficar com ela na sua casa.
Pensei por um instante. Mas não queria incomodar Abigail. Ela já tinha tanto com o que lidar. Ficar na edícula era uma ótima solução e melhor escolha. Assim, eu não cruzaria com Victor e evitaria problemas. Acho que vou aceitar.

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