VICTOR BALTIMOR.
Ceci estava com os olhos arregalados, fixos na direção da escada.
— Eli — ela murmurou, a voz baixa, quase um sussurro de choque. Virei a cabeça na mesma hora. E lá estava ela.
Elisa.
Parada no meio da escada, com a criança no colo. O rostinho da menina estava escondido no ombro dela, mas eu via os cabelos escuros iguais aos meus. Elisa não disse nada. Nem uma palavra. Só me olhou por um segundo — um segundo que pareceu eterno — e depois baixou os olhos. Desceu o resto dos degraus rápido, como se fugisse de mim, e seguiu em direção à cozinha.
Cecilia a chamou, mas ela não parou, ou se virou, simplesmente continuou seu caminho. Cecilia se levantou de repente.
— Vou atrás dela — disse, já se dirigindo à cozinha.
— Deixe-a — falei, a voz baixa, mas firme. — Ela ouviu o que precisava ouvir.
Minha sobrinha me olhou feio, me ignorou e foi atrás dela.
Meu estômago deu um nó estranho. Uma frustração que queimava por dentro. Ela havia ouvido tudo. Eu sabia. E mesmo assim, não parou, nem gritou, ou chorou, nem veio me confrontar. Só… foi embora. Como se eu não merecesse nem a raiva dela.
— Victor… — minha mãe começou, a voz trêmula.
— Não — cortei, seco. — Não quero ouvir.
Apertei o braço do sofá com força. Meu corpo ainda tremia do esforço da tosse, mas eu não ia demonstrar fraqueza. Não agora, muito menos na frente deles.
Thomas me encarou, os olhos estreitados.
— Você foi duro demais, Victor. Ela é a mãe dos seus filhos.
— Eu não lembro de ter filhos — retruquei, olhando diretamente para ele. — Nem dela. Nem de nada disso. Então não me venha com sermão agora.
O silêncio voltou, mais pesado que antes. Eu sentia os olhares deles em mim, julgadores, preocupados, irritados. E eu odiava aquilo. Odiava não ter controle, não lembrar e odiava aquela sensação de que algo importante estava escapando pelos meus dedos e eu não conseguia segurar.
Minha mente não parava. A imagem dela na escada ficava voltando. O jeito como ela segurava a criança. O silêncio dela. A indiferença. Ou seria dor? Eu não sabia distinguir. E isso me deixava louco.
— Preciso falar com ela — falei de repente, rompendo o silêncio.

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