VICTOR BALTIMOR.
Abri os olhos e eu estava em casa. Era a primeira certeza que tive.
Não havia cheiro de hospital, nem o som irritante de monitores médicos. O ar parecia mais leve, mais quente, mais vivo. A luz entrava pelas janelas amplas da sala, espalhando um brilho suave sobre os móveis. Tudo parecia tranquilo, confortável.
Podia sentir isso. O ambiente era familiar. O tipo de lugar onde eu relaxava, onde minha mente não estava ocupada com política, negócios ou estratégias. Havia uma sensação de paz no ar, algo raro na minha vida.
Eu estava conversando com alguém. Uma mulher.
Eu a escutava claramente, cada palavra, cada respiração suave entre uma frase e outra. A voz dela tinha algo que me fazia reagir imediatamente. Era como se cada sílaba tocasse diretamente em alguma parte profunda dentro de mim. A voz dela fazia algo dentro de mim vibrar.
Era uma voz suave, doce, mas cheia de vida. Cada palavra que ela dizia parecia aquecer algo dentro do meu peito. E eu estava sorrindo.
Não era um daqueles sorrisos controlados que eu costumava utilizar em público. Não era o sorriso calculado que oferecia à imprensa ou aos aliados políticos. Era um sorriso verdadeiro. Livre. Eu estava feliz.
Mas, por mais que eu tentasse olhar para ela, não conseguia ver seu rosto com clareza. Era estranho.
Eu sabia que ela estava ali, bem na minha frente. Sabia que estava sorrindo, podia sentir isso pela forma como falava. Mas sua imagem parecia sempre escapar, como se uma névoa fina se colocasse entre nós no momento em que eu tentava enxergá-la.
Ainda assim, aquilo não me incomodava. Porque eu estava bem. Mais do que bem. Eu estava feliz.
— Você está me ouvindo, Victor? — ela perguntou, com um tom divertido e uma leve provocação. Eu sorri imediatamente.
A forma como ela disse meu nome fez algo estranho acontecer dentro de mim. Meu peito se apertou de um jeito bom. Como se ouvir aquela voz fosse algo essencial.
— Estou ouvindo — respondi, com naturalidade.
Minha própria voz soou diferente. Mais leve. Menos dura.
— Tem certeza? — Ela insistiu. — Você sempre diz isso, mas às vezes parece que está em outro planeta — ela provocou.
Soltei uma pequena risada.
— Eu tenho muitas responsabilidades — respondi.
— Ah, claro — ela rebateu, divertida. — O grande Victor Baltimor, o homem mais ocupado do mundo.
Balancei a cabeça.
— Não exagera.
— Eu nunca exagero. — respondeu, sorrindo.
A conversa fluía naturalmente entre nós. Não havia esforço. Era como se estivéssemos acostumados àquilo, como se aquela dinâmica entre nós existisse há muito tempo.
Foi então que ouvi. Um choro. Um bebê. Franzi o cenho e olhei para baixo, instintivamente. E percebi, eu estava segurando uma criança em meus braços.

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