VICTOR BALTIMOR.
Apertei os lábios. Aquilo não me agradava nem um pouco. Havia negociações importantes acontecendo constantemente em minha vida. Reuniões políticas, acordos diplomáticos, decisões estratégicas… fora as minhas empresas e os hospitais. Eu não podia simplesmente esquecer coisas. Era minha carreira e meu império que ficariam ameaçados.
— Isso precisa ser revertido — falei imediatamente. — Um primeiro-ministro não pode se dar ao luxo de esquecer informações. Muito menos um empresário. Falta de informações derruba impérios, doutor.
O médico me observou com atenção e um certo nervosismo.
Eu estava quebrado, enfaixado, quase não conseguia falar, mas eu ainda era Victor Baltimor. E continuava implacável. Doutor Antunes sabia disso. Já trabalhava em meu hospital há muito tempo e sabia muito bem que eu não brincava.
Ele respirou fundo antes de responder.
— Vamos acompanhar sua evolução. Mas temos que esperar que seu corpo se cure sozinho. Há coisas que a medicina ainda não pode fazer pelo nosso corpo. Sinto muito, senhor Baltimor, mas terá que dar tempo ao tempo. Sugiro ir com calma, pois, nesse momento, seu cérebro ainda está tentando se recuperar, e informações demais podem prejudicar esse processo. E evite se estressar e ficar irritado.
Balancei a cabeça, irritado e extremamente impaciente. Senti uma dor latejar na cabeça, mas ignorei.
— Tenho uma eleição daqui a um ano — insisti. — Não posso perder informações cruciais. Precisamos acelerar esse processo.
Foi então que percebi Thomas me encarando de um jeito estranho. Primeiro veio a surpresa, depois o choque tomou conta do rosto dele. Os olhos estavam arregalados, como se eu tivesse dito algo completamente absurdo.
— O quê? — perguntei.
Ele mudou a expressão e pareceu hesitar. Estava visivelmente com dificuldade de me contar algo. Aquilo só aumentou minha ansiedade.
— Victor… em que ano você acha que estamos?
Franzi o cenho.
Que pergunta idiota era aquela? Meu irmão agora havia decidido brincar comigo? Justo naquele momento?
— Meu irmão — falei, com deboche —, eu que sofro o acidente e você que fica desmemoriado?
Ele não riu. Mas eu sorri de lado.
— Estamos em dois mil e vinte e quatro — respondi, tentei dar de ombros e me arrependi, pois senti uma dor horrível e continuei. — Junho, exatamente. Logo será o aniversário da Cecília, sua filha. Você esqueceu?
Respirei fundo e senti imediatamente o peito protestar. Falar demais estava cobrando seu preço. Eu estou me sentindo um trapo humano, ou melhor, uma roupa velha rasgada.
O silêncio que se seguiu foi estranho. Pesado. Thomas olhou para o médico. O médico olhou para Thomas. Depois, os dois me olharam ao mesmo tempo.
Um incômodo frio subiu pela minha coluna. Aquela sensação desagradável de quando você sabe que algo ruim está prestes a explodir. Eu conhecia bem aquele tipo de silêncio. Já tinha presenciado aquilo muitas vezes no mundo dos negócios e na política. E nunca era bom.
— Por que vocês estão me olhando desse jeito?
Ninguém respondeu imediatamente. Minha irritação voltou com força, fazendo o aparelho ao meu lado apitar mais rápido. Na verdade, ela nunca havia ido embora.
— O que vocês estão escondendo de mim? — pressionei, impaciente. — Desembucha logo.
Thomas respirou fundo. Então, deu um passo à frente. Ele pegou minha mão.
Aquilo por si só já era estranho. Meu irmão não era exatamente o tipo de pessoa que fazia gestos dramáticos. Esse simples detalhe foi suficiente para acionar um alerta dentro de mim. Algo estava muito errado.

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