VICTOR BALTIMOR.
Acordar já foi ruim. Mas perceber que minha própria vida não fazia sentido foi ainda pior.
Minha cabeça latejava, pesada, como se alguém estivesse martelando por dentro. Cada som parecia alto demais, cada luz, agressiva demais. Eu estava em um hospital. O cheiro característico e os aparelhos apitando ao meu redor me incomodavam profundamente. Eu não fazia ideia do porquê estava ali. O que havia acontecido comigo?
O médico e a enfermeira se recusaram a me contar qualquer coisa. Disseram que eu precisava ir com calma. Mas minha família saberia, e eu exigi a presença deles.
E, de repente, meu quarto estava cheio. Senti um alívio imediato ao ver minha família. Ver o rosto cansado da minha mãe, o quanto ela parecia abatida, foi perturbador. Estava evidente que algo muito grave havia acontecido comigo para que eu estivesse naquele estado e para que todos estivessem tão preocupados.
Mas nada foi mais perturbador e chocante do que aquela mulher. Elisa.
Disseram que aquele era o nome dela. E que ela era minha noiva e que a criança em seus braços era minha filha. Nada daquilo fazia sentido.
Eu olhava para ela e… nada. Nenhuma lembrança. Nenhum reconhecimento. Nenhuma sensação de familiaridade. Era como encarar uma completa desconhecida que, por algum motivo, me incomodava profundamente.
E era isso que me deixava inquieto: havia algo errado.
Eu não a reconhecia, mas meu corpo reagia estranhamente quando ela falava. Meu coração acelerava sem motivo lógico. Minha respiração ficava curta. Minha cabeça doía mais forte quando ela disse meu nome, quando me olhou, quando se aproximou com aquela criança.
Isso não era normal.
— Ela está mentindo — pensei, observando-a em silêncio. — Tem que estar.
Eu nunca quis filhos. Nunca quis constituir uma família. Não ficaria noivo, muito menos engravidaria alguém. A não ser que ela tivesse armado tudo para cima de mim.
Minha família inteira parecia convencida daquela história absurda. Minha mãe, meu irmão, todos a defendiam com convicção. Isso só tornava tudo ainda mais suspeito. Que tipo de golpe envolvia convencer uma família inteira?

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