VICTOR BALTIMOR.
Amanheceu cinzento, frio e cruel.
Eu não dormi. Não fechei os olhos em nenhum momento, tive receio de não acordar mais e que Pablo precisasse de mim ou falecesse enquanto eu dormia. O corpo estava exausto, os músculos rígidos, a cabeça latejando com cada movimento, mas o medo não permitiu descanso.
Talvez eu precisasse de um exame na minha cabeça, pois doía bastante, eu tinha um inchaço na testa de um lado e um corte do outro. Minhas costelas doíam, com certeza fraturei alguma. Eu não estava nada bem, mas não podia fraquejar agora, precisava continuar resistindo por mim e por Pablo.
O frio era constante, agressivo, infiltrando-se por cada fresta de roupa, de pele, de pensamento.
Respirei fundo, sentindo o ar gelado queimar meus pulmões.
— Ainda está comigo? — perguntei, a voz rouca.
Pablo se mexeu ao meu lado, debaixo do amontoado improvisado de casacos e cobertores.
— Infelizmente… — respondeu com um meio sorriso cansado, os dentes batendo. — Se isso é estar vivo.
— É — falei firme. — E vamos continuar assim.
Ajudei-o a se sentar com cuidado. O braço quebrado estava inchado, o rosto pálido, os olhos fundos de cansaço. Ele tentou esconder a dor, mas eu conhecia Pablo há anos demais para não perceber. Ele pode achar que eu não importava ou não o conhecia. Mas eu conhecia cada um dos meus fiéis funcionários.
— Precisamos comer alguma coisa — comentei. — Mesmo que seja pouco.
Peguei o que havia separado ainda durante a madrugada: barras de cereal amassadas, um pacote de biscoitos quebrados, um pedaço de pão ressecado. Dividimos em silêncio, mastigando devagar, como se cada migalha fosse preciosa demais para ser desperdiçada.
— Água — murmurei.
Quebrei o gargalo de uma das garrafas congeladas com uma pedra, tomando cuidado para não ferir as mãos já dormentes. Dei primeiro a ele. A água, por algum milagre, ainda não havia congelado totalmente.
— Devagar — orientei. — Pequenos goles.
Depois bebi um pouco. A água gelada desceu como lâminas pela garganta.
Olhei ao redor. A tempestade havia passado, mas deixara tudo coberto de neve. O avião era agora uma carcaça branca e retorcida no meio de um deserto silencioso. O vento ainda soprava, mas menos violento. Mesmo assim, a temperatura continuava perigosa.
Se não fizéssemos uma fogueira, morreríamos ali. Não era uma possibilidade distante. Era um fato.
Peguei o celular no bolso. Ainda funcionava. Sem sinal. A bateria estava abaixo da metade.
O visor marcava oito da manhã.
— Precisamos de fogo — falei, mais para mim do que para ele. — Sem isso, não aguentamos mais um dia.
Pablo assentiu.
— Concordo. Mas… — ele olhou para os destroços. — Aquilo ali é tudo o que temos.
— Então é dali que vamos tirar o que precisamos.
Tirei as cobertas e os casacos de cima de mim. Levantei-me com cuidado. O corpo protestou, a perna doendo, as escoriações ardendo ao contato com o frio. Ignorei. Dor era secundária agora.
— Fica aqui — ordenei. — Não se mexa muito.
— Victor…
— Não discute — interrompi. — Você precisa conservar energia.
Caminhei até o avião com muita dificuldade. A neve rangia sob meus pés. A fuselagem estava parcialmente enterrada, retorcida, mas ainda havia uma parte traseira relativamente intacta. Usei um pedaço de metal como alavanca e forcei a entrada, minhas mão doeram, e sangraram. O som ecoou alto demais no silêncio absoluto daquele lugar.

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