POV: Terceira pessoa
Havia passado uma semana desde aquela noite que mudara suas vidas para sempre. O mundo, que durante tanto tempo havia sido um lugar sombrio e perigoso para Aslin, começava a parecer seguro novamente. Cada amanhecer trazia consigo uma calma que ela quase havia esquecido que existia. Caminhava pela casa e o som das risadas de seus filhos preenchia os cômodos, devolvendo-lhe a paz que Alexander havia lhe roubado.
Aslin sentia que, finalmente, podia respirar sem o peso da ameaça constante. A morte de Alexander havia sido um infortúnio. Talvez, se ele tivesse se arrependido a tempo... talvez, se tivesse deixado para trás sua obsessão doentia, as coisas não tivessem terminado daquela maneira. Havia um resquício de compaixão em seu coração, mas não era suficiente para apagar o dano que ele havia causado. Aquele homem havia destruído coisas demais: sua paz, sua confiança, suas noites de sono. A única coisa que Aslin sabia com certeza era que, finalmente, estava livre.
Enquanto ela recuperava sua vida, o mundo não demorou a tomar conhecimento do destino de Cinthia. Sua prisão ocupou as capas dos jornais e as manchetes dos noticiários. Aquela mulher que um dia havia manipulado e semeado o caos terminou como Sibil: esquecida e trancada em uma prisão de segurança máxima, pagando por cada crime que havia cometido. Aslin viu a notícia na televisão certa manhã e desligou o aparelho sem se abalar. Não sentia ódio nem alegria; apenas um estranho vazio, como se o capítulo mais sombrio de sua vida finalmente tivesse chegado ao fim.
Em uma tarde luminosa e tranquila, a rotina familiar voltou completamente.
— Mamãe, desça logo! — a voz de Liam ecoou do andar de baixo, impaciente. — Papai está esperando por nós. Você disse que íamos nos atrasar para ir ao parque.
Aslin sorriu. Havia algo reconfortante em ouvir seus filhos chamando sua atenção por algo tão simples. Enquanto, no andar de baixo, as crianças gritavam e riam, ela ficou diante do espelho e prendeu seus longos cabelos loiros em um rabo de cavalo. Seu reflexo lhe devolveu uma imagem diferente daquela que havia visto durante meses: seus olhos, embora cansados, brilhavam de esperança. Pela primeira vez em muito tempo, via neles uma centelha de felicidade.
Terminou de se arrumar e desceu as escadas com passos leves. Assim que colocou um pé na sala, Liam correu até ela. Ela o pegou nos braços, encheu-o de beijos e apertou suas bochechas enquanto ele ria às gargalhadas.
— Ah, meu Liam lindo! — disse ela, e sua voz tremeu com a emoção contida.
Carttal se aproximou e abriu os braços.
— Deixe-me abraçar também o meu herdeiro — disse, fingindo um ar solene.
Noah, que estava por perto, fez um bico.
— Ei, papai! Você disse que eu seria o herdeiro — protestou, fingindo estar ofendido.
As risadas explodiram na sala, enchendo a casa de um calor que Aslin acreditava ter perdido.
— É claro, Noah, você também será — respondeu Carttal, divertido. — Só que você é um pouquinho mais imaturo... Seu irmão é um pouco mais centrado.
Noah cruzou os braços, fingindo indignação, mas um sorriso traidor surgiu em seus lábios.
— E eu, papai? O que vou ser? — perguntou Isabella, correndo para abraçar as pernas de Carttal, com os olhos brilhando como duas estrelas.
Carttal se inclinou para acariciar seus cabelos.
Por um segundo, ele a encarou sem compreender. Depois, seus olhos se arregalaram de incredulidade e um enorme sorriso surgiu em seu rosto.
— Não... não consigo acreditar, Aslin... — sussurrou, com a voz quebrada pela emoção. — Teremos outro bebê?
Ela assentiu, e seus olhos se encheram de lágrimas que, daquela vez, não nasciam do medo, mas da felicidade.
Carttal soltou uma risada trêmula antes de envolvê-la em seus braços. Apertou-a contra o peito como se temesse que aquele momento desaparecesse. Aslin retribuiu o abraço, sentindo a força de suas mãos em suas costas e o calor de seu corpo contra o dela. Riram e choraram ao mesmo tempo, uma mistura de emoções que os transbordava.
Carttal afastou suavemente Aslin para poder olhar em seus olhos.
— Prometo que desta vez será diferente — disse, com uma sinceridade que fez seu coração estremecer. — Nada nem ninguém voltará a nos separar.
Aslin acariciou sua bochecha, sorrindo por entre as lágrimas.
— Não existem mais sombras, Carttal. Apenas nós... e o nosso futuro.
Enquanto as risadas de seus filhos preenchiam o ar e o último raio de sol tingia o céu de dourado, Aslin sentiu que, finalmente, tudo estava em seu devido lugar. O passado havia ficado para trás, e diante deles se abria um novo caminho, repleto de promessas e esperança. Pela primeira vez em muito tempo, ela realmente acreditou na felicidade.

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