Vinte e cinco anos depois
Inglaterra – Londres
O rugido do motor de um carro de luxo rompeu o silêncio da manhã quando uma limusine preta avançou pela avenida principal da cidade. Dentro dela, Liam Azacel, agora um homem de vinte e seis anos, observava pela janela com uma expressão fria e impenetrável. Seu olhar, intenso e calculista, era o reflexo de um caráter forjado sob a disciplina e a força de seu pai, Carttal Azacel.
Vestia um terno impecável, o relógio de ouro brilhando discretamente em seu pulso. Dois seguranças ocupavam os bancos da frente, atentos a cada movimento ao redor. Liam não precisava de palavras para se impor; sua simples presença bastava para que qualquer um entendesse quem ele era.
O veículo virou em direção à entrada do imponente edifício da Azacel Corp., uma torre de vidro que refletia o céu limpo. Diante da entrada principal, uma longa fila de funcionários aguardava. Todos sabiam que aquele dia marcaria uma nova era: o filho mais velho do lendário Carttal havia sido nomeado presidente quando seu pai decidiu se aposentar e lhe entregar o controle absoluto da empresa familiar.
Ao descer do carro, Liam caminhou com passos firmes, seus sapatos ecoando contra o mármore da calçada. O ar parecia se tornar mais denso ao seu redor; respeito e tensão se misturavam entre os presentes. Os funcionários inclinaram levemente a cabeça à passagem do jovem herdeiro, como um reconhecimento silencioso de sua autoridade.
Ele entrou no saguão sem desviar o olhar, ignorando os sussurros ao redor. O peso do sobrenome Azacel o acompanhava, mas Liam o carregava com a mesma segurança que seu pai demonstrara um dia. Para todos naquele lugar, não havia dúvidas: o novo líder da Azacel Corp. havia chegado para ficar.
Liam entrou em seu escritório, um amplo espaço dominado por janelas de vidro que deixavam a luz da cidade invadir o ambiente. Deixou a pasta sobre a mesa e sentou-se na imponente cadeira de couro preto. Ao seu redor, tudo estava perfeitamente organizado, um reflexo de seu caráter meticuloso.
Rodríguez, seu assistente pessoal, aproximou-se com um tablet nas mãos.
— Senhor Azacel, estes são seus compromissos de hoje — anunciou, revisando cada um com voz firme. — Às nove, reunião com o conselho administrativo. Às onze, conferência com os acionistas internacionais. À uma, almoço com o diretor financeiro. E às quatro, a assinatura do acordo com a empresa japonesa.
Liam assentiu sem tirar os olhos dos documentos que começava a revisar. Nesse momento, a porta se abriu e sua secretária entrou carregando uma pilha de papéis. Caminhava com cuidado, mas seus dedos tremiam visivelmente. Ao se aproximar da mesa, um pequeno tropeço foi suficiente para que a xícara de café que levava na outra mão se inclinasse, derramando o líquido escuro sobre o terno impecável de Liam.
O silêncio caiu sobre a sala como um peso esmagador. A jovem secretária empalideceu, incapaz de esconder o pânico em seus olhos.
— S-senhor Azacel, eu… sinto muito — balbuciou.
Liam levantou lentamente o olhar, seus olhos transformados em fragmentos de gelo. Sem elevar a voz, seu tom foi tão cortante quanto uma lâmina.
— Rodríguez, demita-a.
A mulher deu um passo à frente, os olhos marejados em súplica.
— Por favor, senhor, não… eu preciso deste emprego, foi um acidente… — implorou, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Mas Liam não demonstrou qualquer compaixão. Seu olhar permaneceu fixo nos documentos à sua frente, como se ela já não existisse.
— Lágrimas de crocodilo não mudarão nada — murmurou, com a mesma frieza com que rejeitaria uma proposta irrelevante.
A secretária soluçou uma última vez antes de sair apressada do escritório. Quando a porta se fechou atrás dela, Liam, sem tirar os olhos dos papéis, falou com calma gélida:
— Traga-me outro terno.



— O que aconteceu? — perguntou, com a voz gelada, porém contida.
O motorista, com o rosto pálido, apertou o volante com nervosismo.
— S-senhor… acho que atropelei alguém.
Liam abriu a porta imediatamente e saiu do carro. O ar fresco do entardecer atingiu seu rosto enquanto seus seguranças também desciam rapidamente. Ele avançou até a frente do veículo, e seu olhar se endureceu ao ver uma jovem estendida no asfalto.
Ela era pequena, frágil à primeira vista. Usava uma mochila pendurada nos ombros, e seu cabelo cor de avelã, brilhando sob a luz do pôr do sol, estava espalhado pela estrada. Um ferimento na cabeça começava a sangrar lentamente.
Liam a tomou nos braços com um gesto firme, mas ao inclinar-se para acomodá-la, algo capturou sua atenção. Um colar de caveira pendia de seu pescoço, brilhando fracamente sob a luz do entardecer. Seu olhar se tornou rígido no mesmo instante; aquele colar não era um simples adorno.
Ele mesmo o havia dado, anos atrás, a apenas uma pessoa.
Seu coração deu um salto enquanto uma lembrança esquecida o atravessava como um raio.
— Ece… — sussurrou, incrédulo.
Poderia ser ela. A única que havia marcado sua juventude, a mesma que não via desde que tinha dezesseis anos.

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