POV: Cecilia Hernández
Liam apertou os lábios e franziu a testa, como se tentasse decifrar uma resposta que lhe doesse aceitar. Olhou para mim com uma mistura de incredulidade e reprovação que quase me fez recuar.
— Mas como você decidiu algo assim? — perguntou, com a voz grave. — Você não sente rancor por tudo o que esse pedaço de escória fez com você?
Sua pergunta foi um golpe direto. Percebi em seus olhos o fogo antigo, a urgência de um homem acostumado a respostas mais simples: sim ou não, culpa ou vingança. Ele não conseguia conceber que alguém pudesse escolher algo fora desse esquema. Senti meu peito se apertar. Eu esperava aquele ataque, mas não a violência com que ele formulou a pergunta.
Olhei diretamente para ele. Não estava tentando suavizar minhas palavras para agradá-lo, nem justificar meus motivos. Havia apenas alguns minutos, eu sentira a raiva crescer dentro de mim, quente e pura, como uma labareda que exigia ação. Mas também sabia quem eu era — quem queria ser — e essa consciência ergueu uma barreira entre mim e a barbárie.
— Sim — respondi, com a voz o mais firme que consegui. — Eu sei. Sinto raiva. Sinto nojo. Sinto cada uma das humilhações que ele me fez passar, até aquelas que me atravessaram a alma. Mas isso não significa que vou sair por aí me transformando em uma assassina sanguinária.
As palavras saíram claras, e seu efeito foi imediato: um silêncio tenso que ecoou pelas paredes úmidas. Rayner choramingou, preso às amarras, como se tentasse intervir na conversa por puro instinto, mas sua voz estava abafada, insignificante diante do que estava sendo discutido entre nós.
Respirei fundo e, esforçando-me para não perder de vista o que realmente importava, expliquei o que nem precisava dizer: uma bala não acabaria apenas com a vida de um homem, mas também daria início a uma lista interminável de problemas. Falei sobre as redes de contatos, as alianças que não se desfazem por causa de um ato impulsivo, sobre como a violência gera mais violência e como, se Rayner desaparecesse hoje, amanhã outras pessoas viriam cobrar essa dívida.
— Deixe-o ir — disse. — Além disso, você sabe muito bem que não pode matá-lo. Isso vai lhe trazer problemas demais. Terá todas as máfias contra você.
Vi seu corpo ficar tenso. A pistola permaneceu firme entre seus dedos. Ainda assim, não tive certeza de que ele cederia. Havia outra verdade em seu gesto: Liam compreendia a lógica das minhas palavras tanto quanto percebia o medo que eu sentia. Ele sabia que eu estava falando com uma clareza que a raiva muitas vezes não permite. Mas havia algo em sua postura que me dizia que não era o sangue que ele buscava, e sim a justiça à sua maneira, a punição que conhecia e que lhe permitia colocar alguma ordem no caos.
Liam apertou a pistola com força, fechando os punhos. Sua mandíbula se contraiu; ele era a imagem de um homem acostumado a decidir a vida dos outros como se fossem peças em um tabuleiro. E, ainda assim, percebi uma leve tremulação em sua mão. Ele sabia que eu tinha razão — as consequências seriam inevitáveis —, mas não era o medo que o detinha. Era algo mais profundo: um código pessoal, uma raiva que não encontrava outra saída além da violência.
— Não — murmurou, como se estivesse tentando convencer a si mesmo. — Não posso simplesmente... deixar que ele continue respirando depois de tudo o que fez.
Suas palavras pesaram como chumbo. Eu compreendia o que havia por trás delas: Rayner representava para mim cada humilhação, cada noite sem dormir. Mas eu também pagaria o preço por uma morte que tivesse sido ordenada por mim. O que me restaria depois? A fama de uma mulher impiedosa? O cheiro de pólvora como marca registrada? Eu já havia perdido tanta coisa; não estava disposta a perder minha alma para fechar uma porta à força.

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