Gregório Hackman
Os primeiros raios de sol bateram na janela da sala de guerra subterrânea quando Dante entrou com uma nova informação.
— Conseguimos uma mensagem — disse ele, colocando um pen drive sobre a mesa.
Olhei de canto. A garrafa de uísque já estava quase vazia. Eu nem senti o tempo passar desde que desci pra cá. Não dormi. Não comi. Não falei com Ava desde que saí do quarto, e a última coisa que vi foi o olhar dela, assustado e confiante ao mesmo tempo. Um olhar que dizia "vai, mas volta inteiro".
Peguei o pen drive e conectei ao computador. Na tela, apareceu uma captura de uma conversa entre Marcelo De Capri e seu irmão Miguel.
“A base foi atingida. Gregório vai sentir esse prejuízo pelos próximos dias.”
A mensagem era de Marcelo De Capri.
Eu encostei devagar na cadeira, a mandíbula travada, o sangue pulsando no ouvido. Me obriguei a manter o controle. Só que meu coração já tava no campo de batalha. Já tava querendo resolver tudo de uma vez. Já tava imaginando a cara daquele filho da puta quando descobrisse que tinha mexido com o homem errado.
— Como conseguiram isso? — perguntei.
— Um dos nossos informantes conseguiu essa mensagem através de uma fonte próxima à organização dos De Capri. Ainda estamos verificando a autenticidade, mas tudo indica que Marcelo sabia exatamente o que aconteceu no Arco Norte.
Miguel.
O irmão mais discreto dos De Capri. O homem que passava boa parte do tempo fora do país, administrando as boates internacionais da família. Até então, não tínhamos informações concretas de que ele participasse diretamente das guerras do irmão, mas aquela mensagem mostrava que pelo menos estava sendo informado sobre os acontecimentos.
Fechei os olhos por alguns segundos. Tinha algo maior vindo. E dessa vez, eles estavam jogando xadrez com gente demais.
Kowalski.
Marcelo.
E talvez Miguel.
Era uma coleção de desgraçados querendo dividir Nova York como se eu fosse uma lenda do passado. Como se o Hackman já tivesse sido enterrado.
E o que mais me irritava… era saber que quase conseguiram.
Quase.
— Marco, quero vigilância reforçada na mansão. Mas ninguém entra em alarde. Ava já está preocupada demais com tudo isso. Quero que ela se sinta segura. Protegida.
— Vai ser feito.
Me levantei e comecei a andar em círculos. Minha cabeça estava fervendo, mas eu precisava pensar. Não podia permitir que aqueles homens transformassem minha raiva numa vantagem para eles.
— César, temos algo de dentro da máfia polonesa?
— Um dos nossos informantes falou que Kowalski não está mais na cidade. Ele já fez o trabalho e sumiu. Como sempre — disse ele. — Mas existem informações de que deixou dois homens por aqui. Provavelmente observando nossos movimentos.
— Encontrem esses dois. Quero saber pra quem estão trabalhando e o que pretendem fazer.
César assentiu em silêncio.
— E quanto aos negócios do Marcelo? — perguntei.
Dante se adiantou.
— Estamos investigando as movimentações dele. Encontramos informações sobre um cargueiro ligado aos De Capri, mas ainda precisamos confirmar o que está sendo transportado e se existe alguma ligação com o ataque.
Respirei fundo. O sistema estava funcionando. Meus homens estavam trabalhando. Mas o sangue ainda fervia.
Fui até o cofre lateral do bunker. Digitei a senha e abri o compartimento, revelando algo que eu não tocava havia dois anos.
Meu antigo coldre.
E a Glock personalizada que herdei do meu pai. Ainda com o entalhe da águia no cabo. Um símbolo de força. E de retorno.
— Greg... — Marco me olhou, surpreso. — Você vai agir pessoalmente?
— Não vou sentar nessa cadeira esperando o mundo cair na minha cabeça, Marco. Eles vieram até mim. Então agora eu vou até eles.
— Tem certeza?
— Absoluta. Mas vou fazer isso no meu tempo. E com minhas regras.
Peguei o coldre e fiquei alguns segundos observando a arma que tinha pertencido ao meu pai. Me olhei no espelho do elevador e vi algo que não via há tempos.
O homem de antes.
A versão de mim que ficou enterrada quando Ava entrou na minha vida.
Mas hoje… eu precisava dessa versão. Porque só um monstro pode deter outro.
Quando subi de volta pra casa, Ava estava na cozinha. Cabelo preso num coque bagunçado, uma xícara de café nas mãos e olhos fixos na TV sem prestar atenção em nada.
Ela me olhou no segundo em que entrei.

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