Marcelo De Capri
O céu ainda estava escuro quando recebi a ligação.
— A base foi invadida, Don. O recado foi dado.
Foi só isso que Kowalski disse. Uma frase seca, direta, como gosto.
Sorri.
Me levantei da cadeira de couro e fui até o minibar. A garrafa de uísque envelhecido me esperava ali fazia meses, mas eu sabia que só poderia abri-la no momento certo. E esse momento tinha chegado. Desenrosquei a tampa com calma, como se fosse um ritual. Servi dois dedos do líquido âmbar, levei o copo até os lábios e respirei o cheiro da vitória. Porque foi isso. Uma vitória. Não uma guerra vencida, mas o primeiro movimento bem executado num tabuleiro que vai se sujar de sangue.
A base do Arco Norte era um dos pontos estratégicos de distribuição de Gregório ao norte de Manhattan. A localização era importante para os negócios dele, e atingir aquela estrutura significava prejudicar uma parte de suas operações. Agora, aquele lugar estava parcialmente destruído, com homens feridos e prejuízos que Hackman precisaria resolver. Eu sabia que isso não seria suficiente para derrubá-lo, mas nunca tive a intenção de acabar com tudo de uma vez. Queria que ele sentisse cada perda.
Meus homens começaram a chegar à sala de reuniões conforme o sol ameaçava nascer. Sérgio foi o primeiro, como sempre. Discreto. Silencioso. Leal.
— Eles confirmaram o símbolo? — perguntei.
Ele assentiu.
— Letra vermelha na parede. K. A assinatura que Kowalski deixou.
— E as câmeras?
— Algumas imagens começaram a circular entre os nossos aliados. E entre os inimigos também.
Tomei mais um gole do uísque, sentindo o calor queimar a garganta.
— Ótimo. Eu quero o medo caminhando na frente da notícia.
Juan entrou em seguida, seguido por Alonso. Quando todos estavam acomodados, fechei o punho sobre a mesa e falei com firmeza:
— Isso foi apenas o começo.
Alonso cruzou os braços, sério.
— Hackman vai revidar.
— Eu espero que ele reaja. Quero que ele levante o queixo, que arme os homens, que grite pelos corredores como o cão ferido que é. Porque quanto mais barulho ele fizer, mais vai se expor.
— O senhor acha que ele entendeu a mensagem? — Juan perguntou.
— Ele entendeu. E se não entendeu, vai entender quando tentar respirar e perceber que os pulmões estão queimando.
Houve silêncio na mesa. Meus homens sabiam que não era só estratégia. Era pessoal. Gregório ultrapassou o limite quando tocou em territórios meus, quando desrespeitou a minha posição e, principalmente, quando achou que podia desafiar os De Capri perto do meu casamento. Eu estava cansado de assistir àquele desgraçado crescer enquanto os meus negócios sofriam prejuízos. Se ele queria disputar poder comigo, finalmente teria o que estava procurando.
Sérgio puxou uma pasta e abriu sobre a mesa.
— A movimentação financeira da base atingida indica que eles esperavam uma carga pesada para a próxima semana. Perdemos a chance de pegar o material, mas os danos foram suficientes para prejudicar temporariamente as operações daquela rota.
— Bom. Vamos sufocar aos poucos.
— E o casamento? — perguntou Alonso. — Vai manter a data?
— Claro. Não há guerra que me impeça de subir naquele altar com Anastasia. Pelo contrário… esse casamento é parte da guerra.
Eles assentiram, compreendendo.

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