Gregório Hackman
O toque insistente do meu celular me tirou do sono profundo.
Três e vinte da manhã.
Estiquei a mão no escuro procurando Ava do meu lado. O lençol estava amassado, mas vazio. O travesseiro ainda quente. Ela devia ter saído pra beber água, ou talvez estivesse olhando as estrelas lá da varanda, como às vezes fazia. Mas meu peito apertou de um jeito estranho. Aquele tipo de desconforto que só vem quando o instinto grita.
Atendi.
A voz de Marco entrou do outro lado, tensa.
— Chefe... a base do Arco Norte foi invadida.
Sentei na cama com um baque, como se tivessem me jogado um balde de gelo.
— Repete isso.
— Invadiram durante a madrugada, senhor. Destruíram parte da estrutura e deixaram vários homens feridos. O Nico também foi atingido. Não tivemos nenhuma morte, mas... foi feio.
Levantei de um salto. Vesti a calça do pijama e saí do quarto no escuro, com o celular na mão. Entrei no escritório e liguei o sistema do servidor interno. Abri as imagens disponíveis da base do Arco Norte. Me preparei para o pior.
Mas nem minha cabeça fria esperava aquilo.
Era um cenário de destruição.
Homens meus recebendo atendimento. Móveis quebrados. Portas danificadas. O galpão inteiro revirado. E no meio daquele inferno, uma parede rabiscada com tinta spray vermelha.
Uma letra.
Apenas uma.
K.
Kowalski.
Aquela assinatura me fez pensar imediatamente nos poloneses. Homens conhecidos por aceitar trabalhos de quem estivesse disposto a pagar bem.
E se estavam no meu território, alguém tinha contratado seus serviços.
Não precisei pensar muito para chegar ao primeiro suspeito.
Marcelo De Capri.
Minha visão ficou turva por alguns segundos.
Ava apareceu na porta do escritório.
Ela estava com o roupão amarrado no corpo, os cabelos presos de qualquer jeito, com a expressão sonolenta. Mas assim que me viu ali, tenso diante do notebook, o olhar dela se fechou.
— Greg? Aconteceu alguma coisa?
Fechei o notebook devagar. Respirei fundo, tentando não deixar o ódio transbordar na voz.
— Nada, amor. Trabalho. Volta pra cama.
Ela franziu a testa e entrou devagar no escritório.
— Você tá pálido. O que tá acontecendo? Você ficou diferente quando atendeu o telefone.
Puta que pariu. A mulher me lê como se fosse um livro.
Caminhei até ela, segurei seu rosto com as duas mãos e encostei meus lábios na testa dela. Inspirei o cheiro que ela carregava, aquele perfume leve que me acalma e me tira do eixo ao mesmo tempo.
— Vai ficar tudo bem. Eu prometo que vou cuidar de tudo.
Ela assentiu, mas o olhar dizia outra coisa. Sabia que tinha algo errado. Só não sabia o tamanho.
Me abraçou por alguns segundos e voltou pro quarto, devagar, como se esperasse que eu a chamasse de volta.
E eu queria.
Mas precisava descobrir quem tinha coragem de desafiar minha organização daquela maneira.
Peguei o telefone de novo e liguei pra César.
— Alerta máximo. Quero os responsáveis pela segurança das bases reunidos comigo o mais rápido possível. O Marco já está verificando as imagens do Arco Norte. Quero saber tudo o que aconteceu naquela porra de lugar.
— Sim, senhor.
— E escuta, César… quero descobrir por que uma assinatura que parece ser dos Kowalski apareceu dentro da minha base sem que ninguém soubesse dessa ameaça.
— Já estamos verificando, chefe.
— Também quero que o Dante investigue qualquer ligação entre esse ataque e Marcelo De Capri. Movimentações recentes, conflitos comerciais, qualquer informação que ajude a esclarecer o que aconteceu. Entendido?
— Entendido.
Desliguei. Voltei a olhar o mapa da cidade pendurado na parede do escritório. Observei o ponto da base atacada, ao norte de Manhattan.
O recado era claro.
Alguém tinha conseguido atingir meus negócios.
E, se já estavam dispostos a fazer aquilo, eu precisava considerar a possibilidade de tentarem se aproximar da minha casa.
Da Ava.
Do nosso bebê.
A simples ideia me fez cerrar os punhos.
Peguei um copo de uísque, mesmo sendo três e meia da manhã. Dei um gole amargo e encarei meu reflexo no espelho da estante.
Gregório Hackman, o rei de Nova York, descobrindo que seus inimigos tinham encontrado uma maneira de desafiá-lo.
Mas só por uma noite.
No segundo seguinte, determinei que reforçassem a segurança da mansão. Queria todos atentos e nenhuma movimentação suspeita ignorada.
Meu lar precisava continuar sendo o lugar mais seguro para Ava.
E, ainda assim, o frio na espinha não passou.
Porque a ameaça não era só contra mim.

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