Ava
Eu não dormi na noite seguinte à minha decisão de ficar. Mesmo com o colchão mais macio em que já deitei, com os lençóis cheirando a lavanda e o silêncio absoluto da mansão, eu fiquei acordada. A cabeça latejava, e o corpo, apesar do cansaço, parecia incapaz de relaxar. Era como se cada parte de mim ainda estivesse esperando outro golpe.
O quarto era grande, bonito demais. Uma suíte digna de hotel cinco estrelas. Mas não era só luxo que me cercava. Era o peso de saber onde eu estava. Sob o teto de um homem que todo mundo teme. Um homem que matou alguém na minha frente — e depois me ofereceu abrigo como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Gregório Hackman.
Às cinco da manhã, desisti de tentar dormir. Levantei e fui até a varanda. A mansão ainda dormia, mas os seguranças já estavam posicionados nos cantos do jardim. Silenciosos, imóveis, como sombras. Aquilo não era uma casa. Era uma fortaleza. Uma prisão dourada. E eu… eu era hóspede ou prisioneira?
Depois do café — que, dessa vez, foi silencioso e tenso — Gregório desapareceu. Disse apenas:
— Tenho que resolver uma pendência.
Foi a primeira vez que ele evitou me encarar diretamente nos olhos. Parecia... estranho. E, ao mesmo tempo, exatamente como imaginei que ele fosse: alguém que sempre tem uma guerra pra administrar.
Passei o dia explorando o lugar. A mansão tinha três andares, corredores longos, cômodos decorados com quadros caros, antiguidades e livros em várias línguas. As cozinheiras e os funcionários quase não falavam. Todos sabiam quem era Gregório. E sabiam que eu estava ali por algum motivo que não ousavam perguntar.
À tarde, fui até a biblioteca. Tentei me distrair com um romance qualquer, mas minha mente voltava sempre para o mesmo ponto: por que ele se importou comigo? Eu era só uma mulher abandonada no altar, roubada por um noivo canalha, chorando num bar barato. Gregório podia ter me ignorado. Mas não. Ele me viu. Me acolheu. E agora... me mantinha sob o mesmo teto que os segredos mais obscuros da cidade.
Quando anoiteceu, decidi sair do quarto. Eu precisava andar, me mover, sair da minha própria cabeça. Os dois capangas que me seguiam o tempo todo não estavam no corredor. Estranho. Mas um alívio ao mesmo tempo.
Caminhei devagar pelo corredor principal, o piso de madeira escura rangendo sob meus pés descalços. Virei à esquerda, explorando uma ala que ainda não tinha visto, e então ouvi um som abafado. Uma voz. Um grito.
Parei na hora. O som vinha de uma porta ao fundo do corredor. Havia um painel numérico ao lado, mas a porta estava mal fechada. O grito veio de novo. Curto, seco. Minhas mãos suavam. Tudo dentro de mim gritava pra eu voltar, correr pro quarto, fingir que não vi, que não ouvi. Mas alguma coisa me puxou. Talvez curiosidade. Talvez instinto.
Empurrei a porta devagar. Só uma fresta.
Foi o suficiente.
Era uma sala escura, de concreto, com paredes acolchoadas e sem janelas. Um homem estava amarrado numa cadeira de ferro, os braços presos, o rosto machucado, a camisa rasgada. Ele chorava. Literalmente chorava.
E Gregório estava ali.
Em pé. Camisa dobrada até os cotovelos. Luvas pretas. Uma expressão que eu nunca tinha visto antes.
Meu coração parou.
— Você mentiu — ele disse com a voz mais calma que já ouvi. — E no meu mundo, mentira custa caro.
— Foi um engano, eu juro! Eu não sabia que era território seu! — o homem implorava.
Gregório se agachou. Seus olhos estavam frios. Vazios. Aquilo não era um ato. Era ele. O verdadeiro Gregório.
— Um engano? — ele repetiu. — Enganos têm consequências.

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