Ava
Demorei pra entender onde estava.
O teto era alto demais.
As cortinas fechadas deixavam a luz entrar em frestas suaves. Lençóis brancos, macios. Cheiro de madeira polida e perfume masculino. Por um segundo, pensei que fosse um sonho — ou um pesadelo disfarçado de alívio.
Então me lembrei.
Brian.
A ordem de despejo.
As contas vazias.
A ligação desesperada.
E Gregório.
Me virei devagar, o corpo ainda dolorido da noite anterior. Não fisicamente… mas por dentro. Como se as feridas estivessem em carne viva, costuradas com silêncio e tequila.
A cama em que dormi parecia saída de um hotel cinco estrelas. Mas era só um dos quartos da casa — ou melhor, da mansão — do homem mais perigoso de Nova Iorque.
Levantei devagar. Um robe de seda já estava à minha espera sobre a poltrona. Vesti com cuidado. Andei descalça até a porta, hesitei antes de abri-la. E quando abri…
Dois homens estavam do lado de fora.
Altos. Armados. Fardas pretas discretas, fones de ouvido, expressão neutra.
Capanga 1: “Bom dia, senhorita Ava.”
Capanga 2: “O Sr. Hackman pediu que informássemos que o café está pronto. Se desejar, podemos acompanhá-la.”
Minha boca abriu, mas nenhuma palavra saiu por alguns segundos.
Ava: “Acompanhá-la… tipo, vocês vão andar comigo pela casa?”
Capanga 1: “Por segurança.”
Engoli seco.
Não era um lar. Era um campo de guerra com colunas de mármore.
Desci as escadas devagar, os dois homens caminhando a poucos passos de distância. Não falavam, não olhavam diretamente. Mas seus olhos varriam tudo — como se o perigo estivesse em cada sombra.
A casa era gigantesca.
Pisos de madeira escura, tapetes orientais, quadros caros. Uma mistura de museu com prisão de luxo.
Na sala de jantar, havia uma mesa comprida o bastante para vinte pessoas. Mas havia apenas dois lugares postos.
E ele estava lá.
Gregório.
De terno cinza, cabelo penteado pra trás, olhos fixos no tablet que segurava.
Não levantou quando me viu.
Só gesticulou com a mão para que eu sentasse.
Me aproximei devagar.
Ava: “Bom dia.”
Gregório: “Dormiu bem?”
Ava: “Na medida do possível.”
Ele olhou brevemente pra mim. Os olhos varreram meu rosto. Meu robe. Meus pés descalços.
Gregório: “Você ainda parece frágil.”
Ava: “Porque eu tô.”
Gregório: “Isso passa.”
O café estava servido: frutas frescas, ovos mexidos, pães ainda quentes.
Fiquei parada. Hesitando.
Gregório: “Come. Tá seguro.”
Ava: “Desculpa, eu só… não sei como agir aqui. Não sei onde tô pisando.”

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