Gregório
O beijo ainda queimava na minha pele. Curto. Surpreendente. Mas real demais pra fingir que não aconteceu. Ela me beijou. E não foi parte de um plano. Não foi sedução. Nem manipulação. Foi impulso puro. Instinto. E talvez… um pedido silencioso pra eu não fugir.
Mas eu não beijo. Eu comando. E ninguém comanda a mim. Ou pelo menos… era assim antes dela.
Ava me desarma com uma facilidade que me irrita. Ela não grita. Não exige. Não provoca. Ela apenas existe. E, por algum motivo que desafia toda a lógica que conheço, isso é o suficiente pra me tirar do eixo. Ela não sabe o que provocou. Nem o que despertou em mim. E o pior? Nem eu sei o que fazer com isso.
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Depois que ela subiu, voltei pro deque da casa do lago. Fiquei algum tempo sentado no banco de madeira, com os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando a água. Tentando, de alguma forma, organizar o que estava acontecendo dentro de mim. O vento soprava forte, mas eu mal percebia. Minha cabeça continuava presa naquele beijo e na expressão assustada de Ava quando se afastou.
Voltamos para Nova Iorque no fim da tarde. Durante o voo, ela permaneceu ao meu lado, olhando pela janela. Conversamos pouco, mas percebi que algumas vezes seus olhos procuravam os meus. Nenhum de nós mencionou o beijo.
Quando chegamos à mansão, Ava subiu para descansar. Eu fui até a varanda, onde Marco apareceu algum tempo depois, trazendo dois copos de uísque.
— Vai me dizer que ficou mudo agora? — perguntou, me entregando um deles.
— O que você quer?
— Ver se você ainda é você. Porque… sinceramente, Gregório, nunca te vi tão calado.
Aceitei o copo e dei um gole.
— Aconteceu alguma coisa naquela viagem? — ele perguntou.
— Por quê?
— Porque você saiu daqui com cara de quem ia resolver um problema e voltou parecendo que arrumou outro.
Revirei os olhos.
— Ela me beijou.
Marco soltou um assobio baixo.
— Isso é novo.
— Não começa.
— Só achei curioso você não ter feito o que sempre faz quando alguém invade seu espaço.
— Ela não invadiu — corrigi. — Eu deixei.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Depois, ele falou com aquele tom que só usava quando queria me alertar.
— Gregório… você já me viu ao seu lado em negócios com cartel, com políticos, com rivais, com traidores. Já me viu enfrentar gente que te devia lealdade. Mas o que você tá começando a sentir por essa mulher…
— Eu não sinto — cortei, seco.
— É aí que você se engana. Você sente. E sente muito. E isso pode ser… ou sua ruína… ou sua revolução.
O uísque desceu queimando.
— E se for os dois?
— Então queime tudo — ele respondeu. — Mas não se engane achando que vai sair ileso.
Suspirei.
— Marco…
— Eu sei, eu sei. Você não ama. Você não se apega. Você é o rei do submundo. Mas escuta isso: ninguém fica de joelhos diante de você, Gregório. Mas ela fez você se ajoelhar por dentro.
Essas palavras ficaram martelando na minha cabeça. Mais do que eu queria admitir.
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Já era madrugada quando voltei pra dentro. Subi devagar, com os passos silenciosos de quem sabe andar entre sombras. Parei diante do quarto de Ava e abri a porta com cuidado.
Ela dormia de lado, abraçada ao travesseiro. A camisa que usava era minha. O cabelo solto cobria parte do rosto. E mesmo assim, Ava parecia… leve. Como se ali fosse o único lugar onde ela se permitia descansar.
Fiquei alguns segundos perto da porta. Ela resmungou alguma coisa no sono, virou pro outro lado e suspirou. Sorri de canto. E me odiei por isso.
Quis me aproximar. Quis protegê-la do mundo. Mas também quis fugir. Porque quanto mais eu me importo, mais vulnerável fico. E vulnerabilidade, pra um homem como eu… é um convite à morte.
Ava é tudo o que eu nunca quis. E, ironicamente, tudo o que eu não consigo mais ignorar.
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Na manhã seguinte, saí cedo. Antes que ela acordasse. Fui direto pra sede da empresa de fachada, onde conduzo os negócios que sustentam meu império.
Mas minha cabeça não estava ali.
Fiquei pouco tempo. Apenas o necessário pra revisar contratos e dar ordens. Marco apareceu com alguns documentos pendentes, mas percebeu rapidamente que eu não estava com paciência.

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