Ava
O sol batia no vidro da janela, filtrado pelas folhas alaranjadas lá fora.
Era um calor gostoso, silencioso, que invadia o quarto sem pedir licença.
Eu me virei na cama de lençóis claros e macios.
Por um instante, não reconheci o lugar.
Não havia barulho de trânsito, nem passos apressados, nem despertadores violentos.
Só o som do vento lá fora e dos pássaros anunciando que o mundo ainda existia.
Me sentei devagar.
Estava com a camisa dele.
Era grande, macia, cheirava a madeira e alguma colônia que grudava na pele como memória boa.
Passei os dedos no tecido. Sorri.
Levantei.
Quando me aproximei do espelho do quarto, respirei fundo.
A mesma Ava de sempre estava ali. Mas havia algo… diferente.
Eu não me xinguei.
Não torci o nariz.
Não tentei esconder meu corpo com os braços.
Pela primeira vez em muito tempo… eu só me olhei.
E, por um segundo, me achei bonita.
**
Desci as escadas descalça.
A madeira fria sob os pés, o cheiro de café vindo da cozinha, o som de uma música baixa tocando no rádio — jazz, de novo. Ele tinha bom gosto.
Gregório estava encostado no batente da varanda, com uma caneca na mão, olhando o lago.
O sol batia nos ombros dele, destacando cada linha daquele corpo forte e contido.
Não era o mesmo homem que matou alguém na minha frente.
Não era o mafioso temido de Nova Iorque.
Era só ele.
E, naquele momento, talvez fosse só meu.
— Bom dia — murmurei.
Ele virou devagar. Quando me viu, arqueou uma sobrancelha. Depois… sorriu. De verdade.
— Bom dia, Ava.
— Você acorda cedo — comentei, tentando esconder o nervosismo.
— Há anos. O mundo é mais silencioso de manhã. Eu gosto do silêncio. Dá pra pensar sem interferência.
Me aproximei e aceitei a segunda caneca que ele me entregou.
O café estava doce. E quente.
— E no que você pensa, quando tá aqui?
— Em como o mundo seria diferente se todo mundo tivesse direito a uma manhã assim.
Sorri, olhando pro lago.
— Eu nunca tive uma manhã assim. Nunca parei de verdade. Nunca... me senti viva desse jeito.
Ele me olhou. E eu senti o olhar. Era pesado, mas não sufocava. Era firme.
Era presença.
— Você tá viva. Muito mais do que imagina.
Bebi o café em silêncio por alguns segundos.
Depois, nos sentamos no deque.

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