Estefânia sentiu dores intensas por todo o corpo.
Parecia que havia sido despedaçada e depois remontada.
Tentou abrir os olhos, mas achou extremamente difícil.
Ouviu vozes distantes ao seu redor...
“O que vamos fazer se ela continuar com essa febre?”
“Vou comprar um café gelado para a irmã, será que ela vai se sentir melhor depois?”
“Café gelado pode? E o estômago dela?”
“Então, o que podemos fazer?”
Pareceu-lhe que ouvia as vozes da mãe e de Marcelo.
Franziu a testa várias vezes antes de, com muito esforço, conseguir erguer as pálpebras pesadas.
O teto era branco.
O lustre era dourado.
Ela não havia ficado cega?
Como de repente recuperara a visão?
A mãe largou a toalha úmida que segurava e acariciou suavemente sua testa. “Ainda bem que você acordou. O motorista da família Rodrigues disse que precisava te levar para um jantar beneficente. Quando chegou à porta de casa, viu que você tinha desmaiado, ficou sem saber o que fazer e te trouxe imediatamente para casa.”
“Irmã, você está se sentindo melhor?” Marcelo Moreira segurou sua mão, com os olhos cheios de expectativa.
Diante dela estavam os rostos ansiosos da mãe e de Marcelo.
Estefânia fechou lentamente os olhos novamente.
Não era de se admirar que pudesse enxergar.
Depois da morte, as doenças realmente desapareciam.
Ela tinha certeza: havia morrido.
A mãe e o irmão estavam à sua frente.
Não havia erro.
Suspirou.
No fim, acabara mesmo morrendo.
Mas, pelo menos, o primeiro rosto que vira no além era de sua família.
Sentiu-se até confortada.
Porém, pesavam-lhe no coração muitos pedidos de desculpas e uma tristeza profunda.
“Mãe, por que a irmã não fala com a gente?”
“Sua irmã está com febre, não está se sentindo bem.”
“Ah, tá.”
Ainda ouvia as vozes da mãe e do irmão.
Sentiu os olhos arderem.
Afinal, reunir-se com a família depois da morte também era verdade.
Então, do que mais teria medo?
Adriana encerrou a ligação.
Subiu correndo as escadas, aflita.
A ambulância chegou rapidamente e Estefânia foi levada para o hospital.
Ela logo adormeceu novamente.
Continuava a falar coisas sem sentido.
Depois de ser medicada com soro, Adriana ficou extremamente preocupada e não se afastou por um instante sequer.
Vigiaram por três dias.
Só então Estefânia despertou de verdade.
Olhou para o branco ao redor e sentiu o cheiro forte de desinfetante.
Sentiu-se melancólica e abatida.
Afinal, até no além havia hospitais.
Já estava morta, se ficaria ou não internada, tanto fazia.
O amor da família, esse sim, era real.
Mesmo transformada em fantasma, ainda era amada por eles.
“Estefânia, hoje vamos trocar o curativo, a febre quase já passou. Depois de mais alguns dias de soro, você poderá ter alta.”
Estefânia ergueu o olhar para a jovem enfermeira, perguntando, desolada: “Depois de ter alta, para onde devo me apresentar?”
“Se apresentar para quê?” A enfermeira olhou-a, surpresa. “Você deve voltar para casa.”

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