Ponto de vista de Riley
O grito da mulher rasgou o salão de banquetes como um uivo sob uma lua de sangue.
Agudo. Gutural. Animal.
E então... baque.
Seu corpo se contorceu uma vez antes de desabar para trás em um monte desajeitado. Ela desmaiou de dor.
Mas a misericórdia era um luxo que ela havia perdido.
Sem hesitar, um dos guardas de Stormridge deu um passo à frente e jogou um balde de água gelada em seu rosto. O som do respingo contra sua pele era nítido, quase teatral.
Ela acordou com um solavanco ofegante, apenas para deparar com sua própria mão ensanguentada. Onde seu polegar costumava estar, havia apenas carne arruinada, inchada e pulsante. Seu grito desta vez era mais fraco, rouco, mas não menos cheio de horror.
O homem que fez isso, seu marido, ficou paralisado ao lado dela, a lâmina ensanguentada ainda agarrada em sua mão trêmula. Suas pupilas tinham encolhido para pequenos pontos. Seus joelhos cederam, e ele desabou com um soluço, a faca batendo inutilmente no chão ao lado dele.
Suas lágrimas fluíam sem controle. Mas eu não senti nada. Nem um lampejo de culpa.
Ao nosso redor, o salão de banquetes havia ficado mortalmente silencioso. O cheiro do medo, agudo, azedo, distintamente lupino, pairava espesso no ar. Eu podia ouvir corações batendo, pulmões contendo soluços, o arrastar de saltos caros tentando se aproximar das sombras.
Nenhuma alma ousou falar.
Não quando o ar estava impregnado de dominação e retribuição.
Não quando Riley Vale estava de cabeça erguida e sangue nas mãos.
Os outros três casais pareciam como se a Deusa da Lua os tivesse amaldiçoado ali mesmo. Os maridos tremiam como folhas no vento de inverno, suas esposas soluçando, se agarrando uma à outra, esperando em vão se tornarem invisíveis.
Lucien não disse nada. Ele não precisava. Ele era meu escudo agora, mas eu era a espada.
Elas se viraram para mim então. Não para ele. Para mim.
— Senhorita Vale, por favor — uma das mulheres restantes chorou, sua voz se partindo. — Não sabíamos. Não queríamos que chegasse a esse ponto. Por favor... tenha misericórdia!
Outra tropeçou para a frente, quase caindo de joelhos:
— Estávamos erradas. Nós admitimos. Você quer punição? Tudo bem! Apenas... não assim.
Eu dei um passo à frente lentamente, a barra do meu vestido azul-lua sussurrando pelo mármore. Todos os olhos me seguiram. Cada batida do coração parecia pausar.
Eu olhei para elas, as mesmas mulheres que uma vez me olharam como lixo.
Que rasgaram minhas vestes.
Que me bateram.
Que cuspiram em mim e me chamaram de vira-lata renegada.
— Vocês acham que a misericórdia é algo que vocês podem implorar? — Minha voz não tremia. — Onde estava essa misericórdia quando vocês me prenderam e riram?
Elas soluçaram mais alto.
Um dos maridos tentou proteger sua esposa, colocando-se na frente dela como um cavaleiro de papel:
— Nós faremos qualquer coisa — ele implorou. — Só diga.
Eu sorri. Não gentilmente.
— Vocês disseram qualquer coisa?
Seus olhos se iluminaram com uma esperança frágil.
— Sim.
— Bom — eu disse friamente. — Então rastejem.
Suas expressões se quebraram. Chocados. Incredulidade.
— Vocês me ouviram — continuei, a voz calma e brutal. — De joelhos. Todas vocês. Rosnem suas desculpas como as lobas que fingem ser. Mostrem a barriga. Descubram a garganta. Então arrastem suas línguas por este chão e limpem seus pecados dele. Essa é a única redenção que eu permitirei.
Uma das mulheres soluçou:
— Isso é desumano.
— Não — eu disse, os olhos brilhando. — É lupino.
A hesitação durou menos que um sopro. Sob o peso do meu comando, fortalecido pela dominação silenciosa de Lucien atrás de mim, elas se curvaram. Quatro mulheres da alta sociedade, rastejando como vira-latas diante da matilha.
Elas baixaram a cabeça, descobriram as gargantas e começaram a rosnar desculpas, baixas, forçadas, humilhantes. Seus rosnados tremiam de vergonha e terror. O som ecoou pelo salão como um réquiem.
Então elas lamberam.
Línguas raspavam o mármore. Sangue e lágrimas se misturavam na superfície polida enquanto elas se arrastavam para frente centímetro a centímetro. Para cada passo, repetiam desculpas quebradas, rosnando através de mandíbulas cerradas, soluçando, engasgando enquanto saliva e orgulho se acumulavam em seus joelhos.
Eu fiquei acima delas, impassível.
Suas lágrimas não significavam nada para mim.
Seu tremor não significava nada.
— Eu deveria fazer você uivar sua vergonha para cada lobo nesta cidade — disse friamente. — Eu deveria marcá-la.
Mas justo antes das palavras saírem da minha boca, me contive.
Porque Seraphina... ainda era do sangue de Lucien.
E embora tivesse traído tudo pelo que sua família deveria ter lutado, eu não ultrapassaria a linha. Não esta. Esta era a matilha dele. Sua casa. Sua vergonha para lidar.
Recuei, não com medo, não em rendição, mas por princípio.
Me virei para Lucien, minha voz calma e firme:
— Ela é sua.
O peso das minhas palavras se instalou sobre o salão como nuvens de tempestade.
Lucien não havia se movido durante nada disso. Ele simplesmente observou, silencioso, calculista. Mas agora, seu olhar gelado se voltou para Seraphina, e algo mais frio do que o inverno começou a se agitar atrás de seus olhos.
Seraphina ergueu o rosto para ele, sangue e lágrimas manchando suas feições antes imaculadas.
— Lucien... por favor...
Mas seu silêncio era ensurdecedor.
Ele deu um passo à frente, lentamente, como a maré subindo antes de se chocar.
— Você desonrou o nome Duskgrave — disse ele, a voz baixa e afiada como vidro quebrado. — Você ergueu garras contra minha companheira. E então se humilhou, não porque se arrepende... mas porque perdeu.
Ela prendeu a respiração.
Lucien não gritou. Ele não precisava.
— Você deveria ter pensado nisso antes de envergonhar meu sangue — disse gelidamente.
Então ele olhou para os guardas:
— Levem-na para o lounge privado. Ela ainda me deve mais.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Filha da Alcateia (Aysel)
Comprei moedas e os Capítulos a partir do 96 não foram desbloqueados, site ruim....